Sabrina Noivas 88 - Hometown Wedding

Voc no deve voltar para casa...den Rae Harper era 1 loira sensual, alm de 1 bem-sucedida executiva de Nova York. Havia anos que esquecera a pequena cidadzinha do interior em que nascera e toda a humilhao que sofrera ali quando ainda era 1 adolescente. Travis Conroy nunca deixara sua fazenda nem desejara viver na cidade grande. Era 1 homem bonito, queimado pelo sol e selvagem e forte como qualquer 1 de seus cavalos campees. Assim como h despedidas, h reencontros. E den Harper ainda no conseguiu entender o que est fazendo nos braos do charmoso Travis Conroy...

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1996. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance histrico contemporneo


Voc est convidada para o casamento de

den Harper e Travis Conroy

Magde Harper e Robert Peterson

No sbado, 8 de agosto 
na Igreja de Nossa Senhora da Misericrdia, 
s trs da tarde. Haver uma recepo aps a cerimnia.

CAPITULO I

Ele estava parado junto  fonte, enquanto os olhos I escuros vasculhavam o terminal areo de Salt Lake City. Usava jeans e tinha em uma das mos um chapu Stetson empoeirado. A outra mo segurava um livro de bolso, com uma capa muito amassada. Os dedos longos brincavam com o livro, dobrando-o, virando as bordas com impacincia.
den Harper o viu antes que ele a visse.; Tinha sado depressa do avio, pois pretendia dar uma passada rpida no banheiro de senhoras, mas o impacto de v-lo foi to forte quanto colidir com um muro de tijolos.
Travis Conroy!
E estava bem no caminho dela.
Agarrando a pasta pesada, den hesitou. Podia sentir a autoconfiana conquistada em Manhattan desaparecer como um bloco de gelo ao sol. Mesmo depois de dezesseis anos, a simples ideia de encontr-lo era suficiente para faz-la desejar entrar no primeiro avio e fugir dali.
A tentao era muito grande, mas, naquele instante, os ps dela pareciam presos ao cho.
den ficou parada, fascinada como adolescente diante de seu dolo, apenas observando-o. Os cabelos eram encaracolados, cor de caf, a figura alta, com quase um metro e noventa, destacava-se no saguo. O rosto tinha traos to perfeitos que um dia ela o comparara a uma escultura de Rodin.
Estava mais velho, as rugas provocadas pelo sol j eram evidentes no canto dos olhos escuros, estava mais magro, mas ainda mais forte. Apesar disso, parecia o mesmo garoto da escola, e a lembrana da antiga humilhao voltou-lhe  memria, fazendo-a perceber que o tempo no conseguira curar a velha ferida.
Por que Travis Conroy, entre tantas pessoas? Por que encontr-lo aqui e agora?
Mesmo depois de tantos anos, ele era a ltima pessoa que queria ver outra vez.
Criando coragem, den virou-se para seguir em outra di-reo. Mas era tarde demais. Ele a vira. Os olhos escuros faiscaram em uma demonstrao de reconhecimento. A mo que segurava o livro ficou parada no ar quando a velha sensao de desconforto estabeleceu-se entre os dois.
No havia como escapar daquele encontro.
Forando-se a tomar a ofensiva, den dirigiu-se a ele, com um sorriso animado.
	Ol!  exclamou.  Que surpresa!
	 sim.  O sorriso era forado, revelando apenas uma sombra das covinhas que faziam as garotas delirarem anos atrs.  Edna, no ? Edna Rae Harper?
Como se ele pudesse esquecer...
	 den  explicou, tentando no se intimidar enquanto os olhos escuros a observavam de alto a baixo, analisando o conjunto de linho bege, os cabelos bem cortados na altura do queixo, agora muito mais loiros do que antes.  Eu... mudei meu nome, legalmente, depois que deixei Monroe.
	den.  Ele pronunciou o nome devagar, como se tentasse sentir-lhe o gosto, como algum que experimenta sushi pela primeira vez.  H muito tempo no a vejo por aqui.
A. voz dele soava estranha, fria e formal. Mas o que poderia esperar? Dezesseis anos atrs, a bobagem que fizera tinha sido o escndalo do Colgio South Sevier, e Travis Conroy, a vtima inocente. Ele devia estar relembrando tudo naquele instante.
	No costumo vir para casa com frequncia  respondeu, tentando afastar as emoes da voz.  Nova York  longe, mesmo de avio. Mas mame ser operada dentro de alguns dias. Quero ficar ao lado dela e cuidar de tudo at que se recupere completamente.
	Isso no vai demorar. Sua me  muito forte.
Virando-se, Travis comeou a andar pelo corredor. Sem saber o que fazer, den caminhou ao lado dele. De repente, uma ideia terrvel lhe ocorreu. Ser que algum lhe pedira para vir busc-la? A ltima coisa que desejava era passar trs horas dentro de um carro, com o homem que a fazia relembrar o pior dia de sua vida.
No importa o que Travis estivesse fazendo ali, ela tomaria o nibus, conforme havia planejado. Se fosse preciso, andaria as cento e oitenta milhas at sua casa, mesmo com os sapatos de salto altssimo que usava.
Como vai para casa?  perguntou, cauteloso.
Bastou um olhar para confirmar o que suspeitava. Ele perguntara apenas por educao.
	De nibus. J est tudo certo.
	No est falando srio?!
	Estou sim. Mame no est bem para dirigir at aqui, e no pude alugar um carro, j que no h lugar para devolv-lo na cidade. Vou pegar um txi at o terminal de nibvis e...
	Escute  ele interrompeu, impaciente.  O nibus s sai de Salt Lake s sete ou oito horas, e pra em cada cidadezinha do caminho. No chegar em casa antes da meia-noite. Por que no...
	Como disse, j est tudo certo.  den virou-se, sorrindo, e quase correu para a toalete do outro lado do corredor.  Adeus  disse, olhando-o por sobre o ombro.  Foi bom rev-lo.
Empurrando a porta, quase bateu ria parede. O corao batia forte, e o rosto estava corado, do mesmo modo que sempre acontecia quando se sentia insegura, e que sempre detestara.
Aquilo tudo era ridculo. Tinha quase trinta anos, e passara os ltimos oito sobrevivendo na selva dos editores de Nova York. Deixar-se abalar pela lembrana de uma tola paixo do tempo de colgio era...
Era evidente que o motivo para Travis Conroy estar no aeroporto nada tinha a ver com ela. Tudo que precisava fazer era desaparecer por alguns minutos. Quando voltasse ao corredor, ele j teria ido embora.
O longo voo provocara-lhe uma forte dor de cabea. Remexendo na bolsa, encontrou dois comprimidos de aspirina e engoliu-os com um gole de gua da torneira. O reflexo no espelho, em frente  pia, mostrou-lhe o que Travis tinha visto.
As luzes fluorescentes refletiam-se nos olhos castanho-claros, cuidadosamente maquiados, emoldurados por um rosto quadrado, coroado por brilhantes cabelos loiros  altura do queixo. den fizera de tudo para mudar a imagem desde o tempo do colgio, mas nada fora suficiente. Nunca conseguira livrar-se inteiramente da antiga Edna Rae Harper, sem graa, tmida, amante dos livros, cheia de fantasias romnticas que contrastavam com a vida sem graa que levava. Tivera a prova daquilo havia pouco, j que Travis a reconhecera de imediato.
Inclinando-se para o espelho, limpou uma mancha de rmel no canto do olho e viu algo mais refletido no espelho: a fila de mictrios na parede oposta.
Por um segundo permaneceu imvel, incapaz de acreditar no que tinha feito. Ento ouviu-se uma descarga por trs de uma das portas. O som despertou-a, causando pnico. Agarrando a bolsa saiu correndo do banheiro masculino, os saltos altos batendo no cho.
Travis Conroy estava exatamente onde o deixara. No disse uma palavra, mas nem era preciso. A sobrancelha que se ergueu ao fit-la, revelou-lhe exatamente o que estava pensando.
den tentou pensar em alguma coisa espirituosa para dizer, mas no conseguiu. Em vez disso, fitou-o com um olhar furioso e dirigiu-se para a toalete feminina, pisando duro. Entrando em um dos banheiros, colocou as mos trmulas no rosto que fervia. Agora sabia por que no vinha para casa com frequncia. Bastava descer do avio! Bastava apenas respirar o ar da montanha, e transformava-se de novo em Edna Rae: tmida, desajeitada, fazendo uma bobagem atrs da outra.
Depois de acalmar-se, saiu do banheiro e lavou as mos. No tinha cabimento agir como uma adolescente, disse para si mesma. Era bem crescidinha e j estava na hora de comportar-se de acordo.
Monroe, em Utah, era uma cidadezinha minscula e planejava ficar por ali ao menos um ms. Era melhor decidir logo. Ou resolvia o assunto com Travis naquele momento, ou continuava a agir como uma tola cada vez que se encontrassem. A deciso era dela.
Olhando-se no espelho, den passou batom, arrumou os cabelos e ergueu os ombros. Iria lidar com a situao como uma mulher adulta, racional e objetiva. Afinal, Travis Conroy era apenas um caipira de uma cidadezinha do interior. E no havia a menor razo para sentir-se intimidada por ele.
Ainda assim, o corao de den batia disparado ao deixar a toalete. Estava disposta a fazer a coisa mais difcil que j fizera em toda a vida.
Travis sentou-se em um sof no canto do saguo, cruzou as longas pernas, apoiando o chapu sobre elas e abriu o livro. Era uma histria de suspense, de um de seus autores favoritos, mas no conseguia se concentrar na leitura.
Virando uma pgina, olhou impaciente o relgio. O vo de Nicole, vindo de Los Angeles, no chegaria antes de quinze ou vinte minutos. Se ao menos conseguisse ler mais um ou dois captulos...
 Oh! Droga!  praguejou.
O livro caiu no colo quando rendeu-se ao sentimento que o incomodava desde que vira a mulher que agora se chamava den Harper.
Estava tudo acabado. J haviam se passado dezesseis anos, tempo suficiente para esquecer aquele incidente tolo de uma vez. Ento por que suas emoes eram to intensas e confusas?
Era loucura.
Olhando mais uma vez o relgio, acomodou-se melhor no sof e tentou ler novamente. Mas no adiantava. O passado insistia em voltar, dominando os pensamentos e derrubando todos os esforos para esquec-lo.
E o passado estava bem ali, na presena de Edna Rae Harper.
Travis mexeu-se na cadeira, relembrando.
Tinha sido no ltimo ano do colegial, o ano em que fora capito do time de basquete que havia vencido o campeonato. Edna Rae cursava o primeiro ano, e era muito mais jovem do que os colegas de classe, j que entrara na escola antes da idade e sempre fora estudiosa.
Edna vestia-se com roupas sem graa, usava culos de aro de chifre e andava olhando para o cho, como se tentasse se esconder e Travis quase nunca prestava ateno nela. Edna Rae Harper no tinha sido exatamente a garota dos sonhos dele, e alis, de garoto algum.
Mal sabia da existncia dela, at aquela tarde de maio, quando o jornal da escola fora distribudo. Entre as folhas de cada exemplar, algum colocara uma cpia de uma carta escrita a mo, em uma letra delicada e bem feminina.
Oh, Travis, meu amor,
Quando estaremos juntos outra vez? Por quanto tempo terei de arder deste jeito, virando-me na cama, antes de sentir suas mos em meus seios, o veludo suave de sua pele e o doce vinho quente de seus lbios? Quanto tempo at ouvir sua voz murmurar, em meu ouvido, eu te amo Edna Rae, eu te amo...
	Ol, outra vez.
A voz suave obrigou-o a voltar ao presente. Erguendo o olhar, observou o rosto bonito, os brilhantes cabelos dourados e o corte elegante do conjunto que realava o corpo esbelto. De algum modo, a pequena Edna Rae crescera e se transformara em uma linda mulher.
	Ol  respondeu, um tanto surpreso. Depois do modo como se afastara, o que menos esperava era v-la ali. Ela aproximou-se, o rosto um tanto corado. Travis observou-a, apreciando-lhe o jeito de andar, o movimento felino com o qual sentou-se na poltrona do outro lado da mesa  frente dele. A imagem do rosto dela ao sair correndo da toalete masculina voltou-lhe  mente, e sem querer, sorriu.
	Vim pedir desculpas  ela explicou.
No silncio pesado que acompanhou a declarao, Travis pde perceber, atravs da janela, o jato aterrissando no ptio do aeroporto.
	Desculpas? Por qu?
	Pelo que aconteceu hoje. Estava me escondendo na toalete, quando percebi que voc no tem nada a ver com o que estou sentindo. Agi como uma tola.
	No tem por que pedir desculpas  ele retrucou, imaginando onde aquela conversa poderia chegar. Qualquer mulher s pediria desculpas se tivesse algo em mente. Mas Edna Rae jamais fora uma mulher como as outras.
Olhando sem graa para as mos, parecia-se ainda mais com a garota do tempo do colgio.
	Tem mais uma coisa. Percebi que, desde aquele dia terrvel na escola, dezesseis anos atrs, nunca tinha tido oportunidade de pedir-lhe desculpas. Nem de dizer que sinto muito por t-lo colocado em uma situao to embaraosa.
	Nunca esperei que o fizesse.  Travis fitou os olhos castanho-claros, desejando que ela mudasse de assunto. Os colegas de classe haviam caoado dele por um bom tempo, por causa daquela carta, mas afinal, a maioria tinha compreendido que ele era inocente. O mesmo no acontecera com o pessoal da cidade.
Os boatos alastraram-se na pequena comunidade, e, durante um bom tempo, a reputao de Travis fora a pior possvel.
	Tambm no deve ter sido fcil para voc, no  mesmo?  ele perguntou mesmo sem interesse pela resposta.
den desviou o olhar para o colo, mais uma vez. Naquele ano, no voltara mais para a escola. A me dela dissera que estava doente, e tinha conseguido autorizao para que completasse o ano letivo por correspondncia.
	Aquela carta ridcula era confidencial  disse den, olhando para as mos bem cuidadas.  Nunca tive inteno de mostr-la a algum, especialmente a voc.
	Eu sei.  Travis fingiu uma indiferena que estava longe de sentir.  Como poderia saber que Howie Segmiller encontraria a carta em seu fichrio e faria cpias para a escola inteira?
Um arrepio percorreu o corpo de den, embora se esforasse para manter o autocontrole.
	Sinto muito. Estava to envolvida em meus prprios problemas que nem pensei nos seus. Mas posso imaginar quantas dificuldades enfrentou por causa daquela carta.
Os dedos nervosos de Travis amassavam e dobravam o livro. Naquela poca, namorava firme a garota mais bonita da escola, Cheryl McKinley. Trs dias depois do incidente, Cheryl lhe disse que os pais no permitiam que continuassem namorando.
Cheryl se casara com um fazendeiro de Sigurd e tinha cinco filhos. Ele fora para a Universidade de Utah e conhecera Diane.
	Tudo isso acabou  disse, dando de ombros.  So guas passadas, como diz o povo. Agora somos pessoas diferentes.
	Sim... Acho que sim.  Ela forou um sorriso.  Afinal, o que aconteceu com Howie Segmiller?
	Na ltima vez que encontrei a me dele, contou-me que ele estava se candidatando a vereador em Nevada.
	Acho que esperava ouvir que estava cumprindo pena na priso. - Ela riu, baixinho, e Travis viu-se desejando ouvir novamente aquele som melodioso.
	Howie Segmiller na cadeia? - Rindo, Travis balanou a cabea. - Ele no era nenhum anjo, posso garantir, mas era esperto demais para fazer algo que pudesse compromete-lo. Acho que ser um bom poltico.
den riu, e o som era surpreendentemente sensual, como o roar da seda contra a pele nua. Por alguns segundos Travis deixou-se levar pela emoo que aquele som provocava nele.
E se lhe oferecesse uma carona para casa? Da primeira vez, perguntara apenas para ser educado, e tinha sentido alvio quando ela recusara. Mas que mal haveria em convid-la? Ningum merecia enfrentar a longa viagem de nibus, com inmeras paradas no caminho.
Disse a si mesmo para esquecer aquela ideia absurda. Aquela era Edna Rae Harper, lembrou-se. Levara anos apagando todos os danos que aquela tola fantasia de adolescente provocara nele.
Algumas coisas no valiam o risco.
Travis olhou mais uma vez o relgio, enquanto um grupo de passageiros passava pelo porto, entrando no corredor. A frente dele, den pegou a pasta que apoiara na mesa.
	Bem, j  hora de ir. Minha bagagem j deve ter descido e vejo que est esperando algum.
	Minha filha. Mas o vo ainda deve demorar alguns minutos.  Travis percebeu que estava gostando da companhia de den, por mais absurdo que aquilo pudesse parecer.
	Sua filha?  O sol incidia sobre o rosto de den.  Ento tem uma garotinha!  exclamou com tanta animao que Travis estremeceu.
	 verdade. Mas Nicole no  mais uma garotinha. Fez catorze anos no ms passado.
	Catorze?  den hesitou, mas logo soltou a ala da pasta, deixando-a novamente sobre a mesa.  De onde est vindo?
	Califrnia. Mora l com a me e o padrasto, mas passa o vero comigo.  A voz revelava uma emoo intensa. Nove anos tinham sido tempo suficiente para esquecer Diane, mas jamais conseguira superar a separao de Nicole.
Bem, a dor passaria em pouco tempo, lembrou, sabendo que em alguns minutos o avio aterrissaria, e Nicole estaria de volta para sua vida. Era sua companheira de pescarias, de cavalgadas, por todo o vero. Seria maravilhoso sentir-se pai outra vez.
Travis observou o vo de uma gaivota atravs da janela.
Faltava pouco. Muito pouco para a chegada da filha.
E enquanto esperava, tinha a intrigante den Harper a sua frente. 
den descruzou as pernas e alisou uma prega invisvel na cala de linho. Agora era a hora de despedir-se e ir embora. A filha de Travis logo estaria chegando e ver o pai ao lado de uma estranha poderia causar uma impresso errada.
Mas ele no parecia ter pressa de v-la partir. Sentado con-fortavelmente no sof, continuava a fit-la, e den no conseguia ler nos olhos escuros que sentimentos estariam escondendo. Ser que guardava algum ressentimento? Estaria ainda muito aborrecido?
Brincando com a ala da pasta, tentava entender o que estava acontecendo. Travis estava divorciado e tinha uma filha de catorze anos. E estava sentado bem  frente dela, como se fossem velhos amigos.
O olhar inquieto de den pousou na mo forte e bronzeada que segurava o livro, observando que no usava aliana. Era difcil acreditar que Travis Conroy no tinha compromisso com alguma mulher. Desde o jardim-de-infncia, as garotas o perseguiam incansavelmente. E ele s precisava escolher com quem preferia ficar.
Por que continuava ali,  frente dele, pensando bobagens e ficando corada como uma garotinha? Era melhor deix-lo e seguir seu caminho antes que fizesse mais alguma bobagem.
	Diga, o que faz em Nova York?  ele perguntou, comeando uma conversa.
	Eu?  den forou-se a voltar ao presente.  Acabo de ser promovida  editora chefe da Parnell Books. E estou de olho no lugar de meu chefe, que vai se aposentar no ano que vem. Isto , se outra editora no me fizer uma proposta melhor antes disso.
Um sorriso iluminou o rosto de Travis, fazendo os olhos escuros faiscarem.
	Ento  editora chefe. Sempre soube que era inteligente o bastante para fazer uma carreira brilhante.
	Verdade?  O elogio surpreendeu den, e desejou que o cho se abrisse para trag-la quando percebeu que tinha o rosto corado. Encabulada, procurou alguma coisa para dizer.
	H quanto tempo no v sua filha?
	Muito tempo.  Travis suspirou ao lembrar.  Ela deveria ter vindo para o feriado de Natal, mas ficou com catapora. Diane prometeu que a mandaria para c na primavera, mas Nicole teve a oportunidade de viajar para o Hava com os primos, e ficou to excitada com a ideia que no pude deixar de concordar. 
	Ento no a v desde o outono?
	Exatamente.  Travis esticou as pernas compridas, cruzando-as  altura dos tornozelos, cobertos pelas botas de vaqueiro bem-surradas.  Estou ansioso por v-la. E uma garota especial. Tira boas notas na escola e toca flauta como um anjo. Adora acampar e pescar, tanto quanto eu. Vamos nos divertir bastante neste vero.
Ele parou de repente quando o alto-falante anunciou a chegada de um vo, com desembarque no porto B-16.
	E o vo de Nicole. Venha, vou apresent-la a voc!
	Acho melhor...  Mas Travis j estava longe, quase correndo pelo corredor, na direo das pessoas que desembarcavam.
den hesitou, mas logo decidiu no acompanh-lo. Levantando-se, pegou a pasta pesada e caminhou na direo oposta, onde ficava a escada rolante que levava ao local onde chegavam as bagagens. Era a oportunidade de ir embora antes que ele voltasse. Algumas horas no nibus eram bem mais seguras do que passar muito tempo falando e fazendo bobagens.
S que... Ela parou, incapaz de controlar a curiosidade. Travis falara tanto na menina, que tinha vontade de ver como era. Seria interessante descobrir entre os passageiros que desembarcavam quem era a filha dele. Em seguida pegaria um txi para o terminal de nibus.
Em um gesto impulsivo, virou-se e voltou pelo corredor, at um canto prximo a uma coluna, de onde tinha plena viso das pessoas que desciam do avio. Dali pde ver que Travis esperava ansioso, acompanhando com o olhar as pessoas que desembarcavam.
den comeou a tentar adivinhar quem seria Nicole, divertindo-se ao imaginar se acertaria ou no, enquanto observava todas as mulheres que desembarcavam. Uma jovem com um beb; uma adolescente, de culos escuros, vestindo cala jeans muito justa e um top minsculo; uma garota bonita, com longos cabelos cacheados, amarrados com um lao. carregando uma flauta.... E claro! Aquela era a filha de Travis. den olhou na direo dele e viu que continuava parado, como se estivesse em choque.
	Nicole!  O nome soou abafado, enquanto a garota com a flauta passava por ele sem ao menos fita-lo.  Nicole, aqui!
A ninfeta de culos escuros deu um gritinho de alegria.
	Papai!  gritou, atirando-se nos braos de Travis com tanta fora que quase o derrubou no cho.  Nem pode imaginar como eu senti saudade!

CAPITULO II
 
	Voc est... mais alta,  Surpreso, Tra-vis olhava a filha, observando os culos escuros, os cabelos cortados como os de um garoto, e o top curtssimo que deixava  mostra a cintura e quase deixava ver os...
	No est contente em me ver?  O sorriso era to lindo quanto uma fileira de prolas perfeitas, destacando-se no rosto bronzeado. No usava mais aparelho nos dentes e nem sequer lhe contara.
	Contente no  bem a palavra certa, meu bem. Estou um pouco... surpreso. Voc no  mais a minha garotinha. Est crescendo depressa. E preciso me acostumar com a ideia.
	As garotinhas crescem.  Ela pegou a mochila, colocando-a nos ombros e passou o brao pelo de Travis.  No queria que fosse criana para sempre, no  mesmo?
	No sei. Foi um tempo to bom.  Travis ajustou os passos largos aos dela, desejando ter  mo um cobertor para envolver o corpo jovem, semidespido. Teria de conversar com ela sobre aquela roupa, ou melhor, sobre a falta de roupa. Mas no naquele momento, quando acabavam de se reencontrar.
	Est com fome? Se quiser, podemos parar no caminho e comer uns hambrgueres.
	No.  Ela sacudiu a cabea, reforando a recusa.  Comi um sanduche no avio. E agora preciso correr para a toalete.  Remexendo na bolsa, pegou o tquete de bagagem e entregou-o a Travis.  Pegue minha bagagem. Vou encontr-lo em um minuto.  Beijando-o de leve no rosto, saiu correndo no meio da multido. Um homem meio calvo, com uma barba cerrada, afastou-se para lhe dar passagem, devorando-a com os olhos. Travis mal conseguiu conter a vontade de pular em cima dele e dar-lhe uma surra. A conversa sobre a roupa dela no poderia esperar.
	Nicole!
Ela virou-se, olhando-o por cima do ombro.
	Ser que no tem um suter ou algo parecido nessa mochila? Precisa vestir alguma coisa.
Nicole fitou-o como se tivesse vindo diretamente do sculo dezoito.
	Ora, papai, no seja antiquado! Estamos no meio do vero! Faz calor e estas so as roupas que uso!
	Escute aqui, mocinha...  As palavras desapareceram quando Nicole sumiu, entrando depressa na toalete feminina.
Parado do lado de fora, Travis tentava entender o que estava acontecendo.
Na universidade, estudara psicologia do adolescente e lera tantos livros sobre o assunto que mal podia lembrar. Recm-formado tinha dado aulas de matemtica para reforar o oramento do rancho, e vira muitas meninas se transformarem em mulheres. Sabia que as adolescentes podiam ser rebeldes. Mas nada daquilo o preparara para enfrentar as mudanas na prpria filha.
Enterrando o chapu Stetson na cabea, virou-se e desceu o corredor, dirigindo-se  escada rolante que levava  rea de retirada das bagagens. Tinha certeza de uma coisa. A srta. Nicole Conroy precisava ser advertida. Assim que chegassem a casa, teria uma conversa com ela.
A viagem para o sul, que esperara to ansiosamente, ameaava transformar-se em uma discusso de trs horas com uma adolescente difcil. Talvez no fosse m ideia ter den Harper com eles. A presena dela por certo evitaria que discutissem no caminho.
den.
Travis resmungou ao perceber que no estava mais ali. Viran-do-se olhou para o corredor, mas no havia nem sinal de den.
Talvez tivesse decidido pegar um txi para o terminal, pensou, irritado. Afinal, o que esperava? Que ficasse ali, esperando por ele, como uma garotinha obediente?
Do alto da escada rolante viu a rea de bagagens, onde uma multido esperava as malas, sacolas e caixas que vinham pelas esteiras. De repente, viu den parada junto a uma das esteiras, esperando impaciente a chegada das malas, com certeza, ansiosa para ir embora.
No tinha o direito de impedi-la.
Enquanto saa da escada rolante, imaginou-a esperando no velho terminal de nibus, depois sentando-se em uma poltrona estragada, ao lado de um homem que roncava, enquanto o nibus fazia uma parada atrs da outra. Bem, a escolha era dela. Era melhor respeitar.
Ao olh-la novamente, percebeu que havia encontrado a bagagem e caminhava decidida na direo da esteira. No arranje mais problemas, o crebro de Travis advertiu-o. Mas as pernas no deram-lhe ateno. Em passos largos cruzou o salo, aproximando-se de den.
	Aqui!  chamou, pegando uma das malas cinzentas que combinava com a pasta de mo.  Pelo menos deixe-me ajud-la a colocar as malas no carrinho.
Travis percebeu que den estava pouco  vontade, e desejou ter ficado a distncia.
	Escute, no pretendo convenc-la a no pegar o nibus. Na verdade, acho at melhor que no v para casa comigo. 
	Apenas no quero criar mais problemas. Para nenhum de ns.  A voz rouca e naturalmente sensual irritou-o, sem que entendesse por que.
	Tem razo.  melhor...  a voz dele falhou, ao ver Nicole descendo pela escada rolante. Ela havia tirado os culos escuros, e fitava com os olhos castanhos, muito brilhantes e sedutores, um jovem loiro com uma jaqueta da universidade de Utah, que estava no mesmo degrau.
Travis cerrou os dentes para se controlar. Nicole disse alguma coisa, e o jovem musculoso sorriu, quase babando em cima dela. O rapaz devia ter aproximadamente vinte anos, e portanto era velho demais para flertar com uma garotinha de catorze.
	Voc est bem?  A voz de den revelava preocupao, e ele virou-se, subitamente desesperado com a nova situao.
	Venha conosco. No estou mais convidando. Estou pedindo, por favor. Se no for assim, acho que acabarei estrangulando Nicole antes de chegarmos em casa.
	Papai!  Nicole tinha descido da escada, e caminhava na direo deles, rebolando provocativamente, depois de acenar para o jovem universitrio. Ao observ-la, Travis gemeu, baixinho. Como um pai poderia convencer a filha adolescente a usar suti?
	Est esperando no lugar errado. Minhas malas vo chegar pelo terminal trs.  A voz sumiu ao reparar na mala que Travis segurava, combinando exatamente com a pasta de den, e em seguida na prpria den, que continuava parada ao lado da esteira.
	Ol  cumprimentou, em um tom meio incerto.
Percebendo que a filha tivera uma impresso errada, Travis apressou-se a fazer as apresentaes.
	Nicole, esta  a srta. den Harper, uma antiga colega de escola. Acaba de chegar de Nova York, e quase esbarramos um no outro, no corredor.
	Oh!  Os olhos castanhos de Nicole inspecionaram den de alto a baixo, antes de relaxar a expresso preocupada.  Nova York?  repetiu, sorrindo.  Que lugar legal!
	 um prazer conhec-la.  den estendeu a mo, e Nicole apertou-a com a polidez formal de uma marionete.
	den est indo para Monroe. Eu lhe ofereci carona, e ela aceitou.  Travis evitou encar-la. No se culpava por for-la a aceitar o convite. Afinal, era um homem desesperado.
	Verdade?  Nicole ainda a observava, avaliando as possibilidades.  Esse blazer que est usando  lindo! Comprou em Nova York?
	Sim, na Bloomingdale's. Na liquidao, mas pelo menos  de l.  Os olhos de den brilharam de repente.  Aposto que combina perfeitamente com o tom bronzeado de sua pele.
Por que no o experimenta?
Nicole nem teve tempo de protestar, j que den estava tirando o palet de linho bege. Travis mal pde acreditar ao ver a filha colocar a mochila de lado e virar-se, estendendo os braos para vesti-lo. Em poucos segundos, a quase nudez estava coberta.
	O que acha?  perguntou, fazendo pose de modelo.
	Est sensacional!  den aprovou, sorrindo.  Por que no o usa at em casa?
	Posso? De verdade?  Nicole girava o corpo para um lado, depois para o outro, inspecionando os bolsos e lapelas.
 Bloomingdale's! E demais!
	J chega de desfile de modas.  melhor pegarmos a bagagem  Travis resmungou, lanando um olhar de pura gratido em direo a den. O modo como lidara com a situao fora simplesmente fantstico.
Evitando o olhar dele, den virou-se depressa, mas no antes que pudesse ver o que o palet escondera. A blusa sem mangas, de seda cor de pssego, revelava a curva dos seios firmes que jamais notara em Edna Rae Harper. Talvez por causa dos bluses largos que usava no tempo da escola. Travis praguejou baixinho, desviando o olhar da renda que via sob o tecido fino da blusa.
As duas sacolas de Nicole chegaram pela esteira. Travis colocou uma em cada ombro, e com den e Nicole trazendo o resto da bagagem caminharam at o elevador que levava ao estacionamento.
	Ali est a caminhonete!  Nicole saiu correndo, e Travis deliberadamente diminuiu os passos, esperando que den ficasse para trs, junto com ele.
	Quero aproveitar a chance para lhe agradecer  sussurrou, inclinando-se na direo do ouvido dela.  No sabia o que fazer a respeito daquela roupa.
O perfume de den chegou at ele, suave e sensual, mas ela continuou caminhando, como se no o tivesse ouvido.
	No deixe que ela perceba  disse.  E nem fique contente antes da hora. Essa foi s a primeira batalha, mas o resto da guerra  por sua conta.
	Parece aborrecida. O que houve?
	Apenas no quero saber de fofocas ao chegarmos em casa. E acredito que voc tambm. Pessoas em cidades pequenas costumam ter boa memria.  Ela fitou-o com expresso preocupada.
	Bem, se quiser posso deix-la em Richfield...
Ela resmungou, baixinho, antes de suspirar, concordando.
	Est bem, vou com vocs. Mas depois o problema  seu. Passei dezesseis anos tentando esquecer aquele dia fatdico, e no pretendo deixar que nada o traga de volta.
Ela apressou o passo, o salto alto batendo no concreto, enquanto as longas pernas a conduziam at a caminhonete onde Nicole os esperava.
Travis ficou para trs, tentando entender as emoes que o dominavam, enquanto observava o andar felino e sensual.
Estava certa. Trazer de volta aquele maldito escndalo no seria nada bom para sua fama na cidade, ainda mais se algum os visse juntos. Era melhor afastar-se dela. Era a atitude mais sensata, com certeza.
Mas assim que inalou novamente o perfume de den, o sentimento que o dominou nada tinha de sensato.
Tenha cuidado, uma vozinha interna o advertiu. Deixe a garota na porta de casa e se esquea dela.
Mas, ao caminhar na direo da picape, percebeu que precisaria de muita fora de vontade para agir assim.
	Quero sentar na janela!  Nicole pendurou-se na porta da velha picape Ford, balanando-se de um lado para o outro at as dobradias rangerem.
	Entre no carro, senhorita!  ordenou Travis, colocando as malas na parte de trs da caminhonete, onde haviam vestgios de feno perfumado.
O cheiro familiar avivou a memria de den, fazendo-a relembrar o pequeno rancho que a famlia de Travis possua a oeste da cidade. Relembrou-se das noites quentes de vero, em que andava de bicicleta pelas trilhas, sentindo o perfume do feno recm-cortado, enquanto pedalava lentamente em frente ao porto da casa dele. O vento nos cabelos, a picada dos mosquitos nas pernas nuas, os sentimentos que a invadiam quando olhava para a casa, tudo parecia de novo to real.
	Por favor, den!  pediu Nicole.  Quero ver a paisagem. E tenho claustrofobia quando sento no meio do banco.
	Agora, escute...  Travis virou-se, a voz rouca, como se no pudesse mais conter a impacincia. Prevendo uma discusso, den coloco-se entre os dois.
	Est tudo bem. No me importo de sentar entre vocs.
A expresso furiosa de Travis mostrou que no aprovara aquela interferncia em um assunto familiar, mas mesmo assim no disse nada.
	Entre  pediu apenas, ficando de lado para lhe dar passagem, mas sem ajud-la a subir na picape alta.
den deslizou no assento, acomodando as pernas junto  alavanca do cmbio e preparando-se para uma desconfortvel viagem de trs horas. Nicole acomodou-se ao lado dela, sorrindo enquanto fechava a porta e abaixava o vidro.
	Obrigada. Voc  demais. Posso entender por que papai est cado por voc.
	Nicole!  O corao de den deu um salto e percebeu que tinha o rosto vermelho.  Voc no sabe o que est...
Nicole caiu na gargalhada, mas ao ver a expresso confusa de den, apressou-se a explicar.
	Estava brincando. Queria ver como voc ia reagir. Como ficou vermelha! Ei, veja aquele garoto!  Ela inclinou-se para ver melhor no espelho lateral.
den ficou imvel, desejando que o cho se abrisse para trag-la, enquanto Travis entrava na picape, acomodando-se ao lado dela. Tarde demais percebeu como a cabina de uma picape podia ser apertada. No havia outro jeito de sentar, seno encostada em Travis, da perna at o ombro.
Uma onda de pnico a envolveu.
den sentava-se rgida como uma pedra, mas totalmente consciente do calor que lhe percorria o corpo vindo do local onde sua coxa tocava a de Travis. Ele cheirava a feno recm-cortado,  grama e sol, e ao sabonete caseiro e perfumado que a me dela costumava comprar no supermercado local. Os msculos eram firmes e o corpo quente, ela podia senti-los mesmo atravs do tecido da cala jeans muito usada.
Suspirando, den tentou ignorar o estranho calor que lhe percorria o corpo. Olhando disfaradamente para baixo, percebeu que os mamilos estavam eretos contra o fino tecido da blusa de seda, que jamais deveria ter escolhido para usar sob o palet. Tarde demais lamentou ter deixado que Travis colocasse a pasta de mo na parte de trs da picape, pois ao menos poderia mant-la no colo, escondendo-se atrs dela.
Emprestar o palet a Nicole tinha sido um gesto impulsivo, bem-intencionado, com certeza, mas impensado. Naquele momento s desejara ajudar Travis a livrar-se da angstia que sentia ao ver a garota com aquelas roupas. Mas no percebera que estava caindo em uma armadilha da qual, naquele momento, no tinha jeito de escapar.
Mas seria aquela a verdadeira razo? den observava a estampa do cobertor Navajo que cobria o banco da picape, tentando entender. Ser que pretendera compensar Travis pelos problemas que havia causado tantos anos atrs? Ou quisera mostrar-lhe que era uma mulher adulta e capaz de lidar com uma garota difcil de catorze anos?
Afinal, o que estava fazendo ali? Se tivesse o menor juzo saltaria da picape, pegaria um txi e iria direto para o terminal de nibus!
Travis deveria estar achando que era fantstica para lidar com adolescentes. S que ela no era. Alm das dolorosas memrias da prpria adolescncia, no entendia nada, especialmente de garotas bonitas e autoconfantes como Nicole. Para ela, tinham sido sempre seres de outro planeta, um local que sempre invejara mas nunca conseguira habitar.
Os dedos de Travis tocaram-lhe os joelhos quando ele colocou a segunda marcha. den encolheu-se, com medo das sensaes que ficavam cada vez mais fortes.
Era uma mulher segura e controlada no trabalho, mas quando se tratava de relacionamentos, especialmente com homens, Edna Rae assumia o comando. Alguns meses atrs, tinha quase acreditado que mudara, mas no queria pensar no noivado que terminara. Especialmente ali, ao lado de Travis Conroy. Faria o melhor possvel nas prximas horas, pensou. Seria educada com ele e paciente com Nicole. E quando a viagem terminasse, agradeceria e sairia correndo, mantendo-se o mais longe possvel deles. Precisava fazer aquilo para manter a sanidade.
Travis Conroy significava problemas. Mais problemas do que estava disposta a enfrentar.
Travis engrenou a terceira marcha, o pulso roando a coxa de den, enquanto acelerava na estrada interestadual. Embora se esforasse para parecer calmo e controlado, as mudanas em Nicole tinham sido um choque para ele. E para piorar, estava sentado ao lado de uma das mulheres mais atraentes que j conhecera.
E o mais incrvel de tudo. Ela era Edna Rae Harper.
Era loucura, pensou, acelerando o carro. Aquela linda mulher tinha sido o tpico patinho feio. E mais ainda, suas loucas fantasias de adolescente o tinham colocado em uma das situaes mais embaraosas que j vivera.
Tudo que desejara de Edna Rae Harper era esquec-la para sempre.
E agora ele estava ali, olhando fixamente a estrada a sua frente, procurando manter os olhos longe da blusa de seda cor de pssego de den. Mas no podia deixar de ver o modo como o tecido colava-se  pele e a transparncia que deixava ver a curva dos seios. Por mais que desejasse evitar, sua imaginao trabalhava fertilmente. O perfume sensual, o calor daquela pele invadiam-lhe os sentidos, trazendo a viso de pssegos maduros no sol de vero, redondos, macios, sedosos ao serem tocados pela ponta dos dedos...
A imagem era suficiente para fazer um homem suar.
	Quanto tempo pretende ficar em Monroe?  perguntou, tentando comear uma conversa.
O brao nu de den roou-lhe o ombro quando ela se ajeitou no assento.
	Vou levar mame amanh at Provo, e faro a cirurgia no dia seguinte no Utah Valley Regional. Depois disso, mais quatro ou cinco semanas, dependendo da recuperao dela.
	Pelo menos ter frias do trabalho.
	No  bem assim. Aquela pasta pesada que colocou l atrs est cheia de manuscritos que preciso ler e editar.
	Ento voc  editora?  perguntou Nicole, que tinha estado o tempo todo com a cabea fora da janela e agora parecia interessada na conversa.  Que legal! Trabalha com escritores como Stephen King?
	No. A Parnell edita textos educativos. Comparado a Stephen King, a maioria das coisas que leio pareceria bem chata.
	Textos educativos!  Nicole virou-se novamente para a janela, acenando para um jovem loiro que passava em um conversvel vermelho. 
Travis cerrou os dentes, contendo a vontade de repreend-la. Estava apenas excitada com a viagem. Aps um ou dois dias no rancho, tudo voltaria ao normal e seria como nos velhos tempos.
den olhava alm dele, para as montanhas Wasatch, que ficavam entre a cidade e o cu azul. Era uma terra rude, mas cheia de lembranas.
	Notei vestgios de feno na carroaria  ela comeou.  Por acaso est trabalhando no rancho de sua famlia?
Travis forou um sorriso, antes de responder.
	Esteve longe por muito tempo  disse, sem fit-la.  Voltei para o rancho assim que acabei a faculdade. E desde ento, moro l.
	Rancheiro!  murmurou den, olhando as unhas polidas para evitar encar-lo.  Sempre o imaginei em um trabalho mais glamouroso. Um agente do FBI ou um famoso modelo, quem sabe.
	Nada disso. Dirigir o rancho foi tudo que sempre desejei.  Travis ultrapassou carro a frente deles, tentando ignorar a perna macia de den junto  dele e a mensagem sensual do perfume que usava. Edna Rae Harper. O nome continuava na mente dele, quando respirou profundamente antes de prosseguir:
	Meu pai tirava do rancho pouco mais do que o suficiente para alimentar a famlia. A terra  muito seca e pedregosa para a maior parte das culturas. As vacas davam pouco leite.
Mas, dez anos atrs, comecei a criar cavalos de corrida. Os cavalos vo bem se lhes dou uma rao extra de feno e aveia, e, desde que hipotequei a propriedade para montar um haras de primeira, as coisas mudaram. Meus animais tm feito um bom dinheiro em Las Vegas e Los Angeles.
	Parece um homem realizado.  den acomodou-se melhor no assento ao lado dele, os cabelos balanando ao vento quente que entrava pela janela.
	Realizado?  Travis deixou que a pergunta ficasse sem resposta. Ser que chegar a uma casa vazia todas as noites, jantar sozinho, e dormir na cama enorme e fria, onde seus pais tinham concebido cinco filhos, podia sr chamado de realizao?
Depois de alguns instantes em silncio, assentiu, em um tom incerto.
	Acho que pode-se dizer isso. Fiz tudo que podia pelo lugar que nasci.
	Parece que considera sua misso cumprida.  den mexeu-se no banco, o seio tocando o brao de Travis no espao apertado da cabina.  Tem planos de ir embora?
	Embora?  A risada profunda encheu o ar.  Meu av comprou estas terras quando chegou aqui, depois da Primeira Guerra Mundial. Meu pai passou toda a vida aqui, lutando contra o solo pedregoso, cheio de ervas daninhas, tentando sustentar a famlia. Ele e mame criaram cinco filhos antes de morrer. Eu era o caula da famlia. Bem, acho que voc conhece toda histria.
Olhando para fora da janela, respirou profundamente, era como se as recordaes trouxessem de volta todos os sentimentos e emoes, mas por fim continuou:
	Ano aps ano, vi meus irmos e irms partirem seguindo suas prprias vidas. E prometi a mim mesmo que, depois da faculdade, voltaria e cuidaria do rancho, tornando-o um lugar produtivo.
Parando de falar, Travis suspirou profundamente. Tinha falado demais, e provavelmente estava fazendo papel de tolo. O que havia de errado com ele naquele dia? Com as mulheres que saa ocasionalmente nunca falava de si mesmo. E naqueles trinta minutos que passara ao lado de den Harper tinha falado de sua vida quase todo o tempo. Era melhor parar...
	Olhem!  anunciou, em um tom animado.  H uma lanchonete logo depois da curva. Algum vai querer refrigerante?
	Eu!  Nicole deu um pulo no banco.  Quero uma Coca diet grande. E tambm um pacote de salgadinhos. Posso comprar chocolate?
	 claro.  Travis entrou no estacionamento da lanchonete, satisfeito ao ver que ao menos uma coisa no mudara em sua filha. O apetite.  E voc, den? O que vai querer?
	Ch gelado. Sem acar. Obrigada.
	Acho que vai ficar com fome. No quer que eu traga um sanduche?
	Almocei no avio. S quero o ch gelado.
	Ei, den! : Nicole sorriu.  Acho que seus soluos desapareceram.
den piscou surpresa e, de repente, ouviu-se um soluo alto. Imediatamente seu rosto ficou vermelho, mas ela deu de ombros e riu.
Travis observou den e a achou extremamente sensual. Lembrou-se de vrias tcnicas bem interessantes para curar soluos, e a ideia de ajud-la a livrar-se daquele mal lhe pareceu muito atraente. Mas era loucura ficar pensando naquilo. As pessoas em cidades pequenas tinham memria de elefante. Se o vissem com Edna Rae Harper, lembrariam-se imediatamente do escndalo.
Forando-se a voltar ao presente, estacionou a caminhonete.
	Esperem aqui, meninas. Volto logo  disse, descendo da cabina.  Ento  uma Coca diet grande, salgadinhos, chocolate, ch gelado... Est certo?
	Sim  confirmou Nicole.  Pode comprar rosquinhas?
	Certo.  Travis bateu a porta e dirigiu-se  lanchonete apressado. Precisava tomar algo bem gelado, para acalmar o estranho calor que sentia.
	Voc frequentou a mesma escola que meu pai? Puxa, deve fazer um sculo!
Obrigada, garota! den encolheu-se sob o olhar crtico, sentindo-se como um sapo na mesa do laboratrio. Travis mal acabara de sair do carro e ali estava ela, respondendo perguntas, sob o olhar curioso da garota.
	Voc nem tinha nascido  respondeu, sorrindo.  Seu pai terminou o colegial dois anos antes de mim.
	E voc achava meu pai o mximo?
	Nicole...  As faces de den ficaram vermelhas mais uma vez.
	Muitas garotas achavam. Sabe disso. Mesmo agora que est mais velho, as mulheres da cidade no lhe do folga. Precisa ver o que fazem!
	No fale assim, Nicole. Seu pai no vai gostar.
	Mas  verdade! Vivem telefonando, trazendo bolos, convidando para jantar. E para outras coisas,  claro! Ele poderia se casar com quem quisesse. Mas no quer. Sabe por qu?
	No  de minha conta, Nicole  den forou-se a responder.
Nicole correu os dedos pelos cabelos cacheados, voltando a insistir.
	No quer saber?
	Nicole...  o protesto de den terminou em um soluo alto.  Est bem! Fale.
	Porque ainda ama minha me. Depois de todos esses anos no conseguiu esquec-la. Por isso no se casou de novo.
 Nicole puxou o espelho lateral, fitando-o para ajeitar o cabelo.  Mas voc no respondeu a pergunta. Quando estava no colgio achava que meu pai era o mximo?
den suspirou, sabendo que a garota no se conformaria sem uma resposta.
	Todas as garotas achavam isso. Eu tambm era uma delas.
Nicole inclinou-se mais ainda para o espelho, limpando uma manchinha inexistente no rosto.
	Sabe o que uma garota da escola fez com ele? Escreveu uma carta cheia de cenas picantes no caderno. Um garoto descobriu, tirou cpias e passou para toda a escola. Papai ficou em uma situao terrvel, j que muitos pensaram que aquelas bobagens eram verdadeiras. A reputao dele na cidade ficou a pior possvel.
den sentiu um arrepio gelado percorrer-lhe o corpo, apesar do calor escaldante dentro da caminhonete.
	Onde ouviu essa histria?
	Kim Driscoll me contou no vero passado. Disse que o nome da garota era Agnes ou algo assim. E que ela era uma idiota. Deixou a cidade logo depois da formatura, e nunca mais voltou. Voc a conheceu?
den negou, sacudindo a cabea, incapaz de falar, olhando desesperada na direo da lanchonete. Felizmente Travis estava saindo pela porta, carregado de pacotes.
	Corra, Nicole! V ajudar seu pai  disse, em um impulso.  Parece que vai derrubar as bebidas!
	Est bem.  A garota saiu correndo no calor sufocante, em direo  porta da lanchonete. den continuou imvel no assento, sentindo a blusa de seda grudada no corpo. O estmago dava voltas s em pensar que estava de volta a casa, para o lugar onde as pessoas ainda falavam de Edna Rae Harper.
Como poderia encar-las? Depois do papel ridculo que fizera ao escrever a carta para Travis, e do mal que lhe causara, embora sem querer, como poderia enfrentar a cidade? Ou pior, como poderia evit-la?
Nas poucas visitas que fizera  me, simplesmente ficara em casa, longe dos olhos das pessoas da cidadezinha. S que daquela vez seria diferente. Com a me recm-operada teria de fazer compras, receber visitas. Durante a recuperao da me no teria escolha seno enfrentar as pessoas que ainda se lembravam do escndalo, mesmo depois de tantos anos.
Muito bern, no havia o que fazer. Enfrentaria tudo com um sorriso, de cabea erguida, como se nada houvesse acontecido. Manteria uma conduta acima de qualquer crtica, mas para isso precisava ficar a quilmetros de distncia de Travis, em primeiro lugar.
Aquela parte, disse den para si mesma, seria a mais fcil. 
Depois daquela viagem sob o sol escaldante, Travis nunca mais iria querer v-la de novo, e o sentimento era recproco. O grupo das mulheres que fazia receitas especiais e vivia atrs dele, poderia continuar tentando conquist-lo. Isto , se conseguissem faz-lo esquecer a ex-esposa.
	Seu ch, minha senhora.
den abriu os olhos, quando algo gelado e mido tocou-lhe o rosto. Surpresa, percebeu que quase cochilara. Travis estava ao lado dela, tocando-lhe o rosto quente com a garrafa de ch gelado.
	Que tal?  Ele sorria, enquanto deslizava a garrafa gelada pela curva do pescoo macio, parando no incio do decote, fazendo-a sentir uma sensao deliciosa, depois do calor escaldante da cabina.
	Oh! Que bom!  den quase gritou, confusa e perturbada pelas sensaes que ele provocara.  Onde est Nicole?
	L dentro, comprando uma escova de dentes.  Ele deslizou no assento, acomodando-se ao lado de den, segurando na mo esquerda um refrigerante gelado de quase um litro.
 Sinto muito que aqui dentro esteja to quente. Minha prxima caminhonete vai ter ar-condicionado. Prometo.
	Se minha memria est certa, h uma revendedora Ford no prximo trevo.
	Muito engraado.  Ele jogou o lanche de Nicole no assento dela e acomodou-se melhor, tomando m longo gole da bebida gelada.  Muito bem, den Harper. Voc realmente tem classe. 
den forou-se a recuperar o autocontrole, antes de responder.
 Mais classe do que Edna Rae?
Uma sombra passou pelo rosto de Travis, mas logo desapareceu.
	Edna Rae tambm tinha classe  disse, por fim.  Apenas no sabia disso.  Sem pedir licena, pegou o ch das mos dela e abriu a garrafa.  Tome, beba. Vai ajud-la a refrescar-se.
Aceitando a bebida, den inclinou a cabea e tomou um longo gole. Havia acordado de madrugada para pegar um txi para o aeroporto de La Guardi. Estava suada e exausta. As roupas estavam coladas ao corpo, os cabelos despenteados, e a aspirina que tomara horas atrs no diminura nem um pouco a dor de cabea.
O que houve? Voc est bem?  A voz dele expressava preocupao e divertimento.
Ela assentiu, lutando contra a tosse.
	Estou bem.  s Edna Rae. Parece que voltou para me assombrar.
Mais uma vez, aquela sombra estranha pareceu cobrir o rosto de Travis, mas logo afastou-se.
	Voc no precisa...
Ele parou ao ver que Nicole se aproximava, trazendo nas mos a escova de dentes. den sentiu uma onda de alvio percorr-la. Esquea o passado, disse a si mesma. Esquea tudo. E a nica coisa sensata a fazer.
Nicole entrou na cabina e bateu a porta com fora. Com a mo livre ligou o rdio, e, inclinando-se, comeou a girar o boto, procurando uma msica. Por fim, um rock pesado invadiu o ar, quando sintonizou um programa da rdio local.
	Posso aumentar, papai?  gritou, para fazer-se ouvir acima do rudo ensurdecedor.
	den?  Travis olhou-a como se esperasse uma resposta.
	Tudo bem.  den afundou-se no assento, a cabea latejando no ritmo das batidas ensurdecedoras da msica. Rock pesado por certo no era sua msica favorita, mas ao menos evitaria a necessidade de manter uma conversa durante a viagem.
	Coloquem os cintos, garotas.  Ele manobrou para fora do estacionamento, pegando novamente a rodovia. O calor e o cansao deixavam den sonolenta. O trfego, a msica e a paisagem foram desaparecendo, enquanto os olhos fechavam-se pesadamente...

CAPITULO III

O sol lanava os ltimos raios sobre as colinas, quando Travis pegou a estrada secundria. A rdio j no sintonizava mais o rock, e Nicole dormia, encolhida contra a porta.
Ele desligou o rdio, apreciando o silncio. den remexeu-se contra seu ombro, ronronando como uma gata durante o sono. O perfume havia enfraquecido, misturando-se ao cheiro da pele, em um aroma que Travis achava profundamente ertico. Para um homem que apreciava tocar, cheirar, provar, alm de ver, Edna Rae tinha as qualidades de um banquete sensual.
O dia tinha sido longo e quente. Estava cansado demais para impedir que a mente divagasse. Comearia sentindo o perfume daqueles cabelos, ento exploraria a concha rosada da orelha com a ponta da lngua, desceria os lbios at a boca macia, para saborear o gosto doce. Ento chegaria ao decote da blusa cor de pssego e deslizaria as mos at...
O que estava fazendo? Ela era Edna Rae Harper! A mesma Edna Rae que lhe causara tantos problemas no passado. Um verdadeiro trauma que levara anos para superar. Mas com certeza no o maior desastre de sua vida.
No quisera o divrcio. Mas, depois de nove anos, via que a separao fora inevitvel. Tinham se casado cedo demais e tido uma filha antes que estarem preparados. Para Diane, criada em uma cidade grande, cercada de conforto, a vida em um apartamento minsculo, sem dinheiro, ao lado do marido preocupado com estudos e trabalho, tinha sido um inferno.
Um coiote atravessou correndo a pista, uma sombra cinzenta ao entardecer. Travis ligou os faris e voltou a ateno para a estrada. No queria atropelar nenhum animal, e muito menos arriscar-se a capotar ou cair um barranco.
Os olhos cansados fitavam a estrada, mas os pensamentos voltaram, insistentes. Talvez houvesse sido diferente, se tivesse feito o que Diane queria. Mas quando insistira em voltar a Monroe e conseguira trabalho como professor do colgio, as coisas tinham comeado a piorar. Ela odiara a vida na cida-dezinha, e detestara o rancho. Apenas Nicole os mantivera juntos por algum tempo, mas nem ela pudera segurar um relacionamento fracassado.
Com ternura, olhou a filha adormecida, vestida no palet de den, ainda agarrada ao saco de salgadinhos. No a perdera. Estava ali. E seria sua companheira por todo o vero.
Logo estaria tudo acertado entre eles. Apesar da aparncia, ainda era sua garotinha. Tinha s catorze anos, e precisava do pai, como sempre.
Faria de tudo para que o vero fosse perfeito. Planejaria o tempo de modo a ficar ao lado de Nicole, compensando com amor e companheirismo os longos meses de separao.
Quanto a den Harper, conseguira causar-lhe uma forte impresso. Mas estava apenas de passagem. Em uma hora a deixaria em casa, acenaria para ela e desapareceria, se tivesse um mnimo de bom senso. Mas talvez no tivesse bom senso.
A cabea de den acomodou-se melhor no ombro de Travis, e os cabelos sedosos roaram o pescoo dele. O calor inesperado que percorreu-lhe o corpo foi to intenso que ele quase gemeu.
A pequena Edna Rae Harper havia se transformado em uma mulher atraente, to tentadora quanto sorvete de creme e baunilha feito em casa ou como um dia quente de vero. A vontade de sentir aquele sabor iria atorment-lo enquanto estivesse na cidade. E se deixasse aquela tentao venc-lo...
Mas no queria pensar naquele momento. No enquanto ela estava ali, clida e sonolenta, o perfume feminino enchendo o ar. Qualquer deciso envolvendo a srta. den Harper tinha de ser tomada a uma distncia segura, de cabea fria.
Travis baixou os faris quando um carro veio na direo contraria, a caminho de Scipio e da rodovia principal. O cu estava pintado de vermelho e dourado, e a brisa do entardecer entrava pela janela aberta.
Inquieto, sentia o peso adormecido de den contra o brao, e estranhamente sentia-se em casa.
Acorde, garota da cidade.
den abriu os olhos e encontrou o rosto sorridente de Travis a um palmo de distncia. Assustada, afastou-se. Rindo, ele jogou a cabea para trs.
	Acorde, srta. Harper. J est em casa.
Ela endireitou-se no assento, olhando ao redor e vendo Nicole adormecida a sua direita.
	S por precauo, entrei na cidade pela estrada de trs sussurrou Travis.  Ningum nos viu. Nossas reputaes permanecem intactas.
	Pare com isso.  den estava tonta e sentia-se desconfortvel. Ao mexer-se deu uma cotovelada nas costelas de Travis.
	Desa e deixe-me sair. Vou sair por a para no acordar Nicole.
	Est bem.  Com o motor ainda ligado, ele abriu a porta e deslizou para o cho, silenciosamente. den forou as pernas adormecidas a se moverem. As roupas estavam grudadas ao corpo devido ao suor e no queria nem imaginar como deviam estar o rosto e os cabelos.
O assento do motorista estava quente, conservando o calor do corpo forte de Travis. Ele esperava ao lado da porta, os olhos brilhando divertidos, enquanto" den esforava-se para passar por trs da direo. J estava quase completamente escuro, e ela imaginou que, mesmo com o horrio de vero, j deveria ser mais de nove e meia. Silenciosamente, agradeceu o horrio tardio e a quietude da rua. Ningum, nem mesmo a me dela, parecia ter ouvido o barulho da caminhonete.
	Cuidado!  Travis estendeu a mo para ajud-la, mas den recusou.
	Posso descer sozinha.  S que a perna adormecida recusou-se a obedecer e, ao tocar o cho, dobrou-se completamente, atirando-a nos braos abertos de Travis. Segurando-a pela cintura, colocou-a no cho, com todo cuidado.
	V com calma.  O tom dele era rouco e no disfarava o divertimento.   melhor tomar cuidado, srta. Harper. O que os vizinhos vo pensar?
Para den, aquela observao foi a gota de gua.
Ora, me deixe em paz!  resmungou, soltando-se e encarando-o.  Est certo. Desde que o vi no aeroporto tenho agido como uma tola. Mas voc no precisa se divertir com isso. O mnimo que pode fazer  me deixar ao menos um pouco de... dignidade!
A voz dela vacilou, como se o esforo tivesse sido demais. Devia correr e entrar em casa, mas a bagagem ainda estava na caminhonete.
	Riu de mim a tarde toda  reclamou, furiosa.  A pobre Edna Rae sempre tropeando nos prprios ps. Muito bem. No sou mais Edna Rae! Na verdade, Edna Rae nunca...
	Posso lhe dizer uma coisa?  O sorriso de Travis desaparecera, mas os olhos ainda brilhavam, divertidos.
- Desa minhas malas, por favor  pediu den, friamente.  Depois posso ouvir o que tem a dizer.
	Fao qualquer coisa para agradar uma dama!  Ele inclinou-se na carroaria, pegando as malas e colocando-as na entrada da garagem. Em seguida parou bem  frente dela, o corpo alto e forte refletindo-se contra o cu, onde uma lua prateada comeava a nascer.
	Vai me ouvir agora?
	Desde que no faa um discurso.  den tentou ficar imune ao charme de Travis, que no havia mudado desde os tempos do colgio. Travis Conroy ainda conseguia faz-la sentir-se como uma garotinha trmula e desajeitada.
Mas no era mais uma adolescente insegura. Era adulta e independente. E Travis no era mais seu heri. Era apenas um homem, s isso.
	Estou esperando. O que queria dizer?
	Sei que de certo modo a forcei a aceitar a carona, mas no posso dizer que sinto muito.  Ele pegou a mo delicada.
Apenas isso. Voc foi uma tima companhia. Voc  como um sopro de brisa fresca, den Harper.
Desarmada pela sinceridade dele, no sabia o que responder. Antes que pudesse falar, ele ergueu a mo at os lbios e beijou-lhe o n dos dedos.
	Boa noite, doce princesa  murmurou, os olhos brilhantes e um sorriso no rosto.  E adeus.
	Oh...  den recuou, surpresa pelo tom divertido na voz dele.  Voc...
Mas Travis no podia mais ouvi-la. J entrara na picape e descia a rua, o mais silenciosamente possvel. Imvel, com a boca seca, continuou parada, ainda sentindo os lbios tocando-lhe a mo.
As luzes das lanternas traseiras do carro j haviam desaparecido na esquina quando den recuperou o autocontrole. Travis Conroy era a pessoa mais inoportuna que j conhecera. Como pudera ser to tola e ingnua, a ponto de idolatr-lo quando estavam no colgio? Era difcil acreditar.
Mas no queria mais pensar nele. Tinha feito uma longa viagem, estava exausta. Naquele momento s queria reencontrar e abraar a me, subir as escadas, tomar um longo banho e dormir entre os lenis de algodo bordado.
den deixou a mala grande na varanda da casa de tijolinhos e voltou para pegar as outras. O lugar parecia estranhamente quieto. O velho Buick verde de Madge Harper estava na garagem, mas no havia luzes acesas dentro da casa.
A me fora avisada de que ela chegaria com o ltimo nibus, e provavelmente tinha ido para a cama mais cedo, dormir um pouco, antes de encontrar a filha na drogaria onde o nibus deixava os passageiros. No precisava acord-la, decidiu. No se pudesse entrar na casa sem fazer barulho.
Ela mexeu no trinco da porta e viu que estava trancada. No tinha importncia, j que a chave reserva costumava ficar embaixo da pedra redonda, no canteiro de gernios, onde a me a colocara toda a vida. Em poucos instantes tinha a chave nas mos. Sacudindo-a para tirar a terra, pegou as malas e dirigiu-se para a porta. A chave girou silenciosamente na fechadura, e logo entrava no pequeno hall s escuras. Se acendesse a luz ali, a me nem perceberia, j que o quarto ficava no andar de cima. Sem soltar as malas, encontrou o interruptor e acendeu-o com o ombro esquerdo.
	Oh!
As malas foram para o cho quando o casal, que se abraava apaixonadamente no sof da sala, separava-se de um salto.
	Me!  den piscou, incapaz de disfarar o choque.
	Ol, querida.  Madge Harper, com o rosto muito corado e radiante, levantou-se depressa, arrumando com gestos nervosos os cabelos despenteados.  Que surpresa! No esperava voc to cedo!
	Eu... sei.  Os olhos de den voltaram-se para o homem de meia-idade, sentado no sof, que tentava recuperar a dignidade. O rosto era familiar, magro e comprido, mas no conseguia lembrar exatamente quem era.
	Querida!  A me se aproximara e agora segurava-lhe o cotovelo, conduzindo-a para o sof.  Lembra-se de Rob Peterson, no ? Ele mora no fim do quarteiro.
	Ah... lembro  murmurou den, aceitando a mo que o homem lhe estendia, enquanto levantava-se do sof, parecendo confuso. Havia tambm uma sra. Peterson, lembrou den. Uma mulher corpulenta, que tocava rgo na igreja. E tambm houvera dois filhos, um menino e uma menina, mais ou menos da idade dela. Onde a me, to meiga e cheia de vida, encaixava-se nessa cena?
	A esposa de Rob, LuDeen, morreu no outono passado  explicou a me, como se pudesse ler seus pensamentos.  Rob e eu estamos... namorando, h alguns meses. Pretendia contar para voc, querida, mas no consegui...
A voz dela falhou, oprimida pelo pesado silncio da sala. Rob Peterson mexia os ps, inquieto, incapaz de enfrentar o olhar incrdulo de den. Ele no era feio, reparou den, observando o corpo alto e magro e o rosto comprido. Mas parecia dolorosamente tmido.
	J comeu, querida?  A me apressou-se na direo da cozinha.  Tenho um bolo na geladeira. Ou, se preferir, posso esquentar o frango que sobrou do almoo.
	No se preocupe, mame.  den suspirou, inclinando-se para pegar as malas.  Estou cansada demais para comer. S preciso de um banho quente e uma boa noite de sono. Conversaremos amanh.  Ela comeou a andar na direo da escada, pretendendo levar as malas menores e voltar para buscar a maior que ficara na varanda.
	Ah... foi um prazer rev-lo, sr. Peterson. Por favor, no deixe que eu estrague a noite de vocs.
	Espere a, senhorita! Vou ajud-la com a bagagem!
Rob Peterson parecia finalmente ter voltado  vida. Tirando as malas da mo de den, voltou  varanda e pegou tambm a mala grande. Em instantes subia decidido a escada, carregando toda a bagagem com os braos compridos. Decidindo no acompanh-lo, den deixou-se cair em uma poltrona.
	Sinto muito, mame  desculpou-se, baixinho.  Se ao menos eu soubesse...
	No foi sua culpa, querida.  Nervosa, Madge andava de um lado para o outro, arrumando as almofadas do sof, tirando uma poeira inexistente dos enfeites na estante.  Devia ter-lhe contado sobre Rob. Pelo menos no teria ficado to chocada.
	No  isso, mame.  s que...  den parou, escolhendo as palavras.  Estou apenas surpresa, e preciso de um tempo para me acostumar.  Ela olhou na direo da escada.  Ele parece um bom homem.
	Ah, eu sabia que ia gostar dele! Ns...  A me parou ao ouvir o som de passos nos degraus.  Seja boazinha e nos d alguns minutos para dizermos boa-noite  sussurrou.  No nos veremos at eu voltar depois da cirurgia, e sei que o pobre Rob est muito mais preocupado do que demonstra. A mulher dele, que Deus a tenha, morreu em uma mesa de cirurgia, e tem medo de que o mesmo acontea comigo.
Ela sorriu com ternura para o homem alto que descia as escadas. den percebeu, com surpresa' que a me estava apaixonada. Sua me, sempre to sensata e equilibrada, estava loucamente apaixonada!
Ao v-la, o rosto srio de Rob Peterson mudou, revelando completa adorao. den mal conteve um gemido. Talvez depois de uma boa noite de sono, pudesse lidar melhor com a nova situao. Mas no naquele momento, quando estava exausta, suada, e ainda sob o efeito do choque de ter encontrado Travis Conroy e viajado com ele.
Os dois apaixonados s tinham olhos um para o outro. Dizendo boa noite subiu, ansiosa por um banho quente.
Meia hora mais tarde, sentindo-se revigorada pelo banho, sentou-se na cama, com as pernas cruzadas sob o corpo, usando apenas o velho robe atoalhado. Depois de um dia como aquele esperava cair sobre o travesseiro e adormecer imediatamente, mas no era o que estava acontecendo. Estava desperta e cheia de energia, como se houvesse tomado muitas xcaras de caf.
Exceto pelo barulho do aparelho de ar condicionado do vizinho, que entrava pela janela aberta, a rua estava silenciosa. A me tinha sado de carro com Rob, e dissera para no esper-la acordada. den no censurou aquela atitude. Depois de tantos anos de solido, a me merecia encontrar algum que a amasse. Mesmo assim, no conseguia afastar a sensao estranha de que havia trocado de lugar com a me, que agora lhe dava explicaes sobre o namorado.
O olhar inquieto de den percorreu o pequeno quarto, que havia mudado pouco desde os tempos do colgio.
Ela parou, olhando para os lbuns vermelho e branco do Colgio South Sevier. Devia t-los jogado fora. Devia t-los queimado. Mas no o fizera. E agora estavam ali, bem  frente dela, para lembr-la de um tempo que queria esquecer.
Em um impulso, estendeu a mo e pegou o livro mais antigo, que se abriu coincidentemente na pgina dos esportistas. S ento lembrou-se de quantas noites dormira com ele sob o travesseiro. Recriminando-se pela tolice, abriu o livro no colo e olhou as fotos. Ali estava Travis Conroy, vestindo o uniforme de basquete, no primeiro ano em que fora o capito do time.
Travis Conroy, lindo, bronzeado, inteligente, e completamen-te fora do alcance de Edna Rae Harper.
den observou atentamente a foto, relembrando quantas horas havia passado olhando para ela, sonhando as tolas fantasias de adolescente. Quantas vezes tinha passado os dedos peia assinatura dele sobre a foto, lembrando-se de cada detalhe do momento em que, lhe pedira para assinar o lbum.
Para Edna Rae. Confie em si mesma. Boa sorte. Travis Conroy.
Confie em si mesma. den fechou o livro com fora e recolocou-o na estante. Tinha lido aquela mensagem centenas de vezes, repetindo-a como um mantra, at que se tornasse parte dela. Confiando em si mesma, fora para a universidade, para Nova York e para o lugar que ocupava em uma editora renomada.
E Travis provavelmente escrevera a mesma coisa para todas as garotas que lhe pediram para assinar o livro.
O livro do ano. O colgio. No!
den gemeu ao lembrar-se da festa do colgio que aconteceria dentro de poucos dias. O convite chegara  casa dela havia cerca de seis semanas, mandado pela me. Ela o atirara na lata de lixo, grata por saber que estaria em Nova York, bem longe de Monroe, quando a reunio acontecesse. Agora, com a cirurgia da me, e um ms de recuperao pela frente, estaria na cidade exatamente no dia da festa.
 claro que no iria. Nem sob tortura concordaria em passar a noite ao lado de duzentas pessoas que se lembravam perfeitamente de Edna Rae. Mas todos esperavam que fosse. E iriam pression-la, j que estava na cidade.
O telefone tocou no corredor do andar de baixo, interrompendo-lhe os pensamentos. den saiu correndo do quarto e desceu as escadas. Talvez fosse a me. Talvez tivesse acontecido alguma coisa com ela.
	Al!  atendeu, sem flego.
	Voc sempre atende o telefone desse jeito, ofegante?  A voz rouca e profunda soou do outro lado, com um tom levemente divertido.
	Travis?
	Espero no t-la acordado.
	No.  Ela esforou-se por parecer aborrecida.  O que houve?
	Desculpe por ligar to tarde. Tenho uma coisa que  sua, e que talvez v precisar.
	O qu?  den mal conseguia pensar.
	Que tal seu palet?
	Ah,  verdade.
	Nicole est dormindo. Mas consegui tirar o casaco antes de coloc-la na cama. Como vai viajar com sua me amanh, imaginei que talvez precisasse do palet.  Ele parou por um instante.  J que est acordada, ser que no posso passar por a agora para entreg-lo para voc?
O corao disparou, e ela sentiu uma onda de pnico invadi-la.
	Voc deve estar muito cansado e...
	Escute. So apenas dez minutos de carro, e no haver ocasio melhor para entregar-lhe. Daqui h pouco passo por a, est bem?
	Travis...
	No se preocupe. No vou ficar muito tempo.  E sem dizer mais nada, desligou.
den apoiou-se contra a parede, tentando recuperar a calma. Nada estava acontecendo como planejara. E exatamente quando estava convencida de que controlava a prpria vida, as pessoas comeavam a agir de modo inesperado. Primeiro a me, e agora Travis. Ele estaria batendo em sua porta em poucos minutos.
Percebendo que tinha os cabelos molhados, o rosto sem maquiagem e usava o velho roupo, correu escada acima. Na valise aberta sobre a cama encontrou uma velha cala jeans e uma camisa cor-de-rosa. Vestindo-se depressa, ajeitou os cabelos loiros com mousse, afastando-os do rosto. Agora a maquiagem...
O que estava fazendo, afinal? O homem viria apenas devolver o blazer, e ela agia como se estivesse se preparando para um encontro. No. Nada de maquiagem.
den olhou-se no espelho, observando a pele clara e o rosto lavado. Sem maquiagem, parecia uma pequena rf, ou pior, parecia Edna Rae.
Mas nada daquilo importava. Eram quase dez horas, estava pronta para ir para cama, e no iria colocar maquiagem s para impressionar Travis Conroy. Decidida, afastou-se do espelho no mesmo instante em que a campainha soou.
	Boa noite.  Travis estava com o blazer pendurado sobre o ombro. Parecia cansado, e den imaginou que preferiria estar em casa, na cama. Alis, pela expresso dele, parecia desejar estar em qualquer lugar, menos ali, falando com Edna Rae Harper.
	Ol  cumprimentou, fingindo uma naturalidade que estava longe de sentir.  No gostaria de entrar?  Minha me disse que deixou um bolo na geladeira.
O rosto de Travis demonstrou uma sbita hesitao.
	Sua me est acordada? No gostaria de perturb-la.
den imaginou que talvez Travis sentisse medo de ficar sozinho com ela, de ser agarrado e seduzido.
	Mame no est em casa  informou, em um tom incerto.  Ela foi... namorar!
	Claro.  Travis ergueu uma sobrancelha.  Com Rob Peterson, no ?
den apoiou-se no batente da porta e suspirou.
	Ento a cidade inteira sabe. E eu no sabia de nada at v-los namorando no sof.
	Escute.  Travis sorriu, acentuando as covinhas do lado da boca.  Sua me  humana, sabia? Acontece com todos ns, garota.
	No  isso.  den olhava a ponta dos sapatos, sentindo-se tola.  S gostaria de ter sabido antes. Afinal sou filha dela.
	Talvez por isso ela no lhe disse. Talvez tivesse medo de que no fosse aceitar.  Ele pendurou o blazer na maaneta da porta.  No vou aceitar o bolo. Mas, pelo jeito, voc est precisando dar uma volta no quarteiro com o tio Travis.
O corao deu um salto, s de pensar naquela possibilidade.
	O que voc...
	Escute, est escuro como breu aqui fora, e todos esto dentro de casa, assistindo  televiso. Vamos, acho que vai ser bom para voc conversar um pouco.
A resistncia de den desapareceu quando ele segurou-a pelo cotovelo. Talvez fosse uma boa ideia. Talvez um passeio no ar fresco da noite fosse exatamente de que precisava depois de um dia to tenso.
A picape de Travis estava parada discretamente do outro lado da rua,  sombra de um enorme carvalho. Ser que ele estacionara do outro lado de propsito? Mas por que preocupar-se? Sabia muito bem que a menor fofoca a respeito dos dois traria  tona a velha histria. E nenhum dos dois desejava aquilo.
	Talvez no seja uma boa ideia  disse, forando-se a resistir.
	Vamos.  Ele j comeava a andar, puxando-a pelo brao.
den apressou o passo para acompanh-lo, com medo de tropear na calada escura. Ao lado dela, o corpo de Travis estava tenso, o aperto no cotovelo era firme e decidido.
	Pode me soltar  resmungou, acertando o passo com o dele.  Prometo que no vou sair correndo e gritando no meio da rua.
Ele soltou-lhe o cotovelo, rindo baixinho, pensando, provavelmente, que ele  quem deveria sair correndo para evitar maiores envolvimentos. Mas quando a luz do poste da rua no os alcanava mais, diminuiu o passo. Por alguns instantes, andaram lado a lado em silncio, Travis fitando a lua, den olhando para os ps. Uma coruja piou bem perto deles, em uma das velhas rvores que cresciam ao longo da rua.
Quantas vezes fantasiara uma cena como aquela, os dois sozinhos em uma doce noite de vero, protegidos pelas sombras, sentindo o perfume das flores, at que ele a tomava nos braos?
	Conte-me sobre minha me e o sr. Peterson  pediu, enquanto dirigiam-se  esquina onde o algodoeiro de mais de duzentos anos erguia-se imponente, como smbolo dos pioneiros que o haviam plantado.  Gostaria de saber tudo que a cidade j sabe.
	No h muito a dizer.  Travis enfiou as mos nos bolsos, como se no soubesse o que fazer com elas.  Rob  um homem bom, decente. Trabalha h anos para uma empresa de Richfield. Os filhos cresceram, foram embora, e acho que sentiu-se muito sozinho depois da morte de LuDeen.
den pensou na me, sempre to cheia de energia, alegre e animada, nos braos de Rob Peterson.
	Parece srio, no ?  murmurou, engolindo em seco.
	Acho que sim.  Travis parou sob os ramos da velha rvore. A noite era uma sinfonia de sons sedutores: as folhas balanando ao vento, os grilos cricrilando, o perfume da roseira na casa do outro lado da rua.  Voc acha que isso seria ruim? Pense h quanto tempo sua me est sozinha. Deve desejar mais do que uma vida solitria e triste para ela.
	Mas eu desejo!  respondeu, um tanto rpido demais.  Quero que seja feliz.  s que...
	O qu?  Ele parara to prximo, que den podia sentir o calor que a pele morena irradiava, como se Travis mantivesse o sol dentro dele.
	No gostaria de v-la magoada, s isso  hesitou den.
	Magoada? Do mesmo modo como voc foi magoada?
den engoliu em seco e afastou-se, como se ele a houvesse golpeado fortemente.
	No sei do que est falando...
Travis tinha o rosto encoberto pelas sombras da noite, e era difcil ver a expresso dos olhos dele.
	Encontrei sua me, por acaso, na agncia do correio, alguns meses atrs. Ela disse algo sobre voar para o leste para assistir a seu casamento, mas agora...
Travis parou no meio da frase, como se percebesse subitamente que havia falado demais.
	E agora, aqui estou eu, sem aliana e sem um homem a meu lado  ela completou a frase, as palavras carregadas de uma amargura que no conseguia esconder.  Est bem, vou lhe contar o que houve. Faltavam dez dias para o casamento. Todos os convites haviam sido enviados, a festa preparada, o vestido pronto...  Ela suspirou profundamente.  Ele mudou de ideia. Simplesmente telefonou para mim, logo de manh, e disse que no podia continuar. Devolvi a aliana por um mensageiro, e nunca mais o vi.
	Parece que est bem melhor sem ele.
	E o que tento dizer a mim mesma. Chet era um idiota.
Mas pelo menos era um idiota honesto. Se tivesse escondido as dvidas e continuado...  den interrompeu-se, envergonhada com o tremor em sua voz.
	Assim mesmo  muito difcil, no ?  perguntou Travis, tentando confort-la.
	.  den suspirou novamente, afastando as lembranas dolorosas.  Mas estvamos falando da minha me.
	Estvamos?  Travis tambm suspirou.  Est bem. Chega de evasivas. Sei que est escondendo algo o tempo todo. Pude sentir o dia inteiro, cada vez que olhava para mim. Fale. O que ?
	No quero falar sobre isso.  Ela virou-se, mas Travis segurou-a pelo brao, puxando-a de volta para as sombras. O corao quase parou quando ele inclinou a cabea, aproximando o rosto do dela. Ento, como se percebesse b gesto, Travis afastou-se.
	Fale, garota, o que ?
	Est bem.  Trmula, imaginou como Travis devia sentir-se superior, mais experiente e seguro do que a pobre Edna Rae Harper.  No tinha ideia de quantos problemas havia lhe causado at hoje, at que Nicole disse algo sobre aquela histria da carta.
	Nicole sabe?  O rosto dele revelava surpresa.
	No sabe dos detalhes. E no sabe que era eu. Mas ouviu a histria de uma amiga, no ltimo vero. As pessoas ainda falam do que aconteceu, Travis. O pessoal da cidade ainda se lembra.
	Esquea. Voc era apenas uma garota tola, e j faz muito tempo.
	Voc acha?  den sentiu a frustrao domin-la, trazendo de volta todos os sentimentos que imaginava esquecidos.
 Aquela maldita carta me perseguiu como um fantasma, durante todo o colegial. Nem imagina quanto  difcil aparecer novamente nesta cidadezinha.
	No culpe a cidade, den.
Trmula, com a boca seca, encarou-o diretamente. Dentro dela, uma voz dizia que Travis estava certo, mas o orgulho no lhe permitiu reconhecer a verdade. Queria dizer algo sofisticado, uma resposta divertida e cheia de humor, mas no conseguiu pensar em nada. Sem saber como agir, suspirou mais uma vez.
	Se est esperando que pea desculpas, j o fiz hoje no aeroporto. Adeus, Travis. E obrigada pela carona.
Com o corao batendo forte, virou-se e afastou-se, controlando o desejo de sair correndo. A fantasia havia acabado. Daquela vez, para sempre. Era melhor encarar a verdade de uma vez por todas. Naquela cidade, Travis seria sempre o garoto perfeito, que todo mundo admirava. E ela seria sempre Edna Rae.
De algum lugar, na escurido da noite, ouviu-se uma porta abrindo-se, e uma voz de mulher chamar o gato. Ela apressou o passo, as mos enfiadas nos bolsos da cala jeans. Ao chegar  varanda ouviu o barulho da picape de Travis, afastando-se na esquina.
den nem virou-se para v-lo ir embora.

CAPITULO IV

Travis respirou fundo ao entrar na estrada principal. Olhando o velocmetro, tirou o p do acelerador. Com tudo que j havia acontecido naquele dia, a ltima coisa que precisava era de uma multa por excesso de velocidade.
Quando mudou a marcha, suspirou ao lembrar a deliciosa tortura que fora a viagem, roando com o brao a perna macia de den, cada vez que precisava usar a alavanca do cmbio. Se ela soubesse o efeito que causava nele, por certo saltaria correndo do carro.
Quase a beijara  sombra do velho algodoeiro. Parecia to frgil, to vulnervel, que o instinto de proteo surgira de repente. Se ao menos no houvesse sido to agressiva...
Mas o que estava pensando, afinal? den lhe fizera um favor ao desaparecer nas sombras. Tom-la nos braos, beij-la, teria sido um passo em direo ao precipcio. A picape comeou a subir a estrada e, em pouco tempo, virava  esquerda, no atalho que levava ao rancho. A noite estava escura, o cu pontilhado de estrelas. A noite estava linda, mas ele sentia-se solitrio. Terrivelmente solitrio.
Se tivesse o mnimo de juzo, esqueceria que tinha encontrado den Harper. Iria para casa, telefonaria para Donetta Ferguson, que lhe trouxera um pote de gelia na semana passada, e a convidaria para ir ao cinema no dia seguinte.
No seria m ideia, exceto pelo fato de que Nicole estava ali. E mesmo que no estivesse, seria difcil demonstrar interesse por Donetta, especialmente depois da longa viagem que fizera com a inquietante srta. Harper.
Os pensamentos de Travis eram confusos ao cruzar o porto e entrar na estradinha que levava at a casa. Tinha certeza de que havia apagado a luz da cozinha, mas naquele momento estava acesa. Nicole devia ter acordado e visto o bilhete que deixara preso na geladeira.
Travis desligou o motor, com a estranha sensao de que havia algo errado. E no era apenas a luz acesa. Os cachorros tambm no estavam ali. Boss, o velho collie, e Benny, o jovem e negro labrador, sempre apareciam correndo para saud-lo assim que chegava. Mas naquela noite no havia sinal deles. O quintal cercado, ao lado da casa, estava eompletamente vazio.
Descendo da picape, sentiu um cheiro estranho, inconfundvel. Fumaa de cigarro.
Algum estivera ali. Talvez...
O pnico dominou Travis, que subiu os degraus da varanda correndo. Se algum vagabundo houvesse aparecido por ali, e encontrado Nicoie sozinha...
Ansioso, abriu a porta da frente, correu pela sala de estar at a enorme e antiquada cozinha.
Nicole estava sentada  mesa, vestindo camisola e roupo, tomando uma Coca diet. Restos de bolo de chocolate espalhavam-se sobre a toalha de plstico vermelho e branco.
Os cachorros dormiam aos ps dela. Benny abanou o rabo quando Travis se aproximou. Boss nem se mexeu.
	Ol, papai.  Nicole apoiava o queixo na mo, os grandes olhos castanhos fitando-o diretamente.  Parece estranho. O que houve? Voc est bem?
Os joelhos de Travis quase dobraram-se, e ele sentou-se, trmulo e aliviado.
	Voc no notou... algo estranho l fora?
	No. Por qu?
	Nada.  No havia razo para amedront-la. Estava ali agora, tudo estava bem.  Desculpe por no estar aqui quando acordou. Sei que no tivemos tempo de conversar direito, mas pensei que fosse dormir a noite toda.
	Est tudo bem. Li seu bilhete.  Ela tomou um longo gole do refrigerante.
	Se beber muito vai acabar sem sono.
	E da?  Ela tomou outro gole.  Voc gosta de den, no ?
	Mal a conheo. Mudou bastante desde os tempos de colgio.
Nicole pegou uma migalha de cobertura de chocolate e colocou-a na ponta da lngua.
	Acho que den  muito legal. E incrvel como uma garota desta cidade sem graa conseguiu ir para Nova York e conquistar sucesso.
	Muita gente daqui teve sucesso na vida, Nicole. Conheo pessoas de Monroe que se tornaram mdicos, advogados, professores universitrios...
	Deveria convid-la para sair.
Os pensamentos de Travis eram confusos ao tentar encontrar uma resposta. Por fim, respondeu meio hesitante.
	No vejo muito futuro para ns. den voltar para Nova York assim que a me dela se recuperar da cirurgia.
	E da? Por acaso falei que devia se casar com ela?
	Alm disso  continuou Travis, ignorando o comentrio , j tenho companhia para todo o vero, e ela est sentada bem  minha frente.
	Por favor!  O olhar de Nicole revelava claramente o que pensava daquele comentrio.  Precisa ter sua prpria vida, papai!
Travis procurou no demonstrar como estava aborrecido e forou-se a responder calmamente.
	S para sua informao, senhorita, eu tenho uma vida, e voc  uma parte muito importante dela. E agora, o que acha de irmos dormir? Vamos levantar cedo amanh, pegar os cavalos, cavalgar at o desfiladeiro e apanhar alguns peixes.
Nicole gemeu baixinho.
	Vamos.  Travis levantou-se, ignorando a decepo que o dominava.  As coisas parecero bem melhores depois de uma boa noite de sono, eu prometo.  Dando a volta na mesa, inclinou-se para beijar a testa da filha, mas parou subitamente.
O forte cheiro de cigarro que notara ao chegar estava ainda mais forte nos cabelos cacheados dela.
	Nicole, o que...
Ela afastou-se depressa, derrubando a lata de refrigerante. O lquido escorreu pela toalha da mesa, caindo no colo dela.
Ainda chocado, Travis reagiu mecanicamente. Pegando um pano de cozinha no balco, comeou a enxugar as roupas da filha.
	No se incomode, papai.  Ela virou-se, tentando ficar mais longe.  Eu posso...  As palavras ficaram no ar quando Travis tocou uma forma retangular no bolso do roupo. O pano caiu no cho quando ele se afastou, lutando para se controlar.
	Muito bem, Nicole, mostre o que  isso  pediu, em um tom firme.
Pelo menos daquela vez ela no tentou argumentar. A mo pequena tremia ao mostrar o mao de cigarros quase encharcado pelo refrigerante.
	Coloque-o na mesa. Sua me sabe?
Nicole negou, sacudindo a cabea.
	Quero a verdade, agora. Onde conseguiu os cigarros?

	Naquele lugar onde paramos para comprar os lanches, hoje  tarde.  A voz era pouco mais que um sussurro.  Quando voltei para comprar a escova de dentes.
	 menor de idade! No perguntaram?
	Eu... falei com rapaz que estava l. Disse que era para voc.
Travis respirou fundo, lutando contra a vontade de lhe dar boas palmadas.
	V para cama, Nicole  disse, friamente.  Estou zangado demais para conversar agora. Vamos falar nisso amanh.
Os grandes olhos castanhos estavam cheios de lgrimas.
	Papai, eu...
	V, Nicole.  Travis procurou manter a voz firme e a expresso severa.  V dormir antes que eu diga alguma coisa que ns dois lamentaremos depois.
Ela mal esperou que acabasse de falar. Lanando-lhe um olhar de desafio, ergueu a barra do roupo e saiu correndo para a escada.
Travis continuou imvel, enquanto os passos desapareciam escada acima. S depois de ouvir o rangido da cama de ferro, indicando que j se deitara, deixou-se cair na cadeira. Por muito tempo apenas conseguiu fitar o pacote de cigarros sobre a mesa.
Na Califrnia, onde ela morava, era comum que muitos jovens fumassem. Mas tinha apenas catorze anos, era jovem demais para adquirir um hbito to perigoso. E pior ainda, tinha mentido para ele, conversado com um estranho, e conseguira convenc-lo a vender os cigarros para ela. O que mais seria capaz de fazer?
O desespero tomou conta de Travis. Sua garotinha, to amada e preciosa, estava seguindo caminhos perigosos. De algum modo, no importa o que custasse, teria que recoloc-la no caminho certo.
Acho que den  legal...
As palavras de Nicole voltaram-lhe  mente, como uma bia flutuando  frente de um nufrago. den. Talvez ela fosse parte da resposta. Era sofisticada, bem-sucedida, e acima de tudo, tinha bom senso, exatamente o modelo que uma garota inteligente como Nicole precisava. E Nicole parecia gostar dela. Talvez...
Travis estendeu a mo para pegar o telefone, mas parou de repente. O que estava pensando? den Harper deixara bem claro que no queria v-lo de novo, e muito menos envolver-se com os problemas familiares de Travis. Telefonar-lhe pedindo ajuda apenas a colocaria em uma posio desconfortvel e o faria parecer tolo. Nicole era responsabilidade dele. den dissera aquilo de muitas maneiras. Teria de encontrar outra soluo.
Frustrado, esmagou o mao de cigarros encharcado e jogou-o no cesto de lixo. Ento, pensando melhor, amarrou o saco plstico, tirou-o da cesta e levou-o para fora onde havia um lato enorme. Lentamente voltou  varanda, onde os dois cachorros esperavam, e parou no ltimo degrau.
A noite estava quente e tranquila, o ar perfumado pelo cheiro de slvia e alfafa. Travis inalou a fragrncia suave, sentindo-se zangado, amedrontado e muito solitrio. Durante meses sonhara com um vero despreocupado ao lado da filha. Agora, percebia que as semanas seguintes seriam uma longa batalha para garantir a felicidade de Nicole no futuro. Uma batalha que no poderia perder.
Afagando os cachorros, reconheceu que precisava desespe-radamente de algum para lutar a seu lado. Mas quando o nome que lhe vinha  mente era o de Edna Rae Harper... No, ele no precisava de mais problemas. Devia estar louco s de pensar naquela possibilidade.
Mesmo assim, ao sentar-se no degrau, ouvindo os grilos cantarem, a imagem que voltou-lhe  mente era de um rosto delicado como porcelana, a boca sensual, brilhantes olhos castanhos emoldurados por sedosos cabelos loiros.
den mexeu-se mais uma vez na cama, olhando as sombras no teto do velho quarto. Os pensamentos eram um turbilho desordenado que no a deixava dormir.
Quantas noites ficara ali, insone, imaginando Travis sobre ela, a boca tocando-lhe a testa, as plpebras, at alcanar os lbios semi-abertos? Quantas vezes sonhara com as mos dele acariciando-lhe o corpo trmulo, explorando...
Chega.1 Quando vou parar de agir como uma adolescente pattica!
Virando-se de bruos, deu um soco no travesseiro e fechou os olhos, decidida a dormir. Mas no adiantou. Os pensamentos continuaram a perturb-la.
Sentando-se na cama, afastou com impacincia uma mecha de cabelos do rosto. O relgio digital indicava 12.42. A me chegara uma hora atrs, esgueirando-se escada acima como uma adolescente que tivesse perdido a hora de voltar para casa. den fingiu no ter ouvido. Amava a me e no pretendia intrometer-se no relacionamento dela com Rob Peterson. Naquele momento tudo que desejava era esconder-se em um buraco e morrer!
Peia dcima vez naquela noite, relembrou cada detalhe do encontro com Travis, cada gesto, cada palavra, desde o instante em que haviam se encontrado no aeroporto, at o momento em que fugira dele. O resultado era um completo desastre. Edna Rae estava mesmo de volta!
Estremecendo, abraou os joelhos, fitando a noite estrelada atravs da janela, semi-encoberta pelos ramos do velho carvalho. Do outro lado da rua, vinha o perfume suave das rosas amarelas que cresciam por toda parte. Aquelas rosas eram to antigas quanto a cidade, e cresciam naturalmente em muitos lugares, sem necessidade de cuidados, oferecendo seu perfume a todos. Muitos habitantes do lugar no lhes davam importncia ou achavam que eram um transtorno por se espalharem por toda parte. No entanto, no havia no mundo perfume como aquele.
Nada mudara na cidade, relembrou amargamente. Travis ainda era o preferido de todos, e ela continuava a ser o patinho feio, cujo corao dava saltos cada vez que o via.
Agitada demais para continuar na cama, levantou-se de um salto dirigindo-se para a porta. Na pressa bateu o dedo do p com toda fora na cadeira de balano. A dor subiu pela perna, mas den conteve o grito e voltou para a cama, pulando em um p s. Deixando-se cair pesadamente sobre o colcho, sentiu os olhos cheios de lgrimas.
O dedo iria sarar,  claro. Mas tropear nos prprios ps era tpico de Edna Rae. E naquela noite tudo o que fizera fora agir como a adolescente que tanto queria esquecer. Sempre agira como uma idiota na frente de Travis, e mesmo aps dezesseis anos nada mudara.
Por um instante, naquela noite, parecera que Travis gostava dela. Mas era s porque o ajudara com Nicole. E ele devia achar que precisava agradecer de alguma forma.
Bem, nada daquilo importava, decidiu, puxando o lenol at o queixo. No dia seguinte, bem cedo, teria de dirigir 140 milhas para levar a me at Provo, onde faria os exames e a cirurgia. Cinco dias depois estariam de volta, e ela teria muitas obrigaes a cumprir. No teria tempo de ver ningum da cidade, e muito menos Travis.
Fechando os olhos, forou-se a respirar profundamente. Embora os pensamentos continuassem a atorment-la, estava exausta e sentia o corpo dolorido depois da longa viagem. Aos poucos, semi-adormecida, comeou a ouvir uma melodia conhecida. As luzes suaves combinavam com o som e vrias pessoas danavam. Ela tambm danava, e comeou a reconhecer as pessoas ao redor. Mitzi Cole, a lder da torcida; LeRoy Hatch, o capito do time; Lynette Bartleson, a rainha da escola, com os longos cabelos cacheados. Todos perfeitos, brilhantes.
den entrou em pnico. O que estava fazendo no meio deles? Ali no era seu lugar, nunca fora. Precisava fugir. Depressa.
S ento percebeu que algum a conduzia ao som da msica romntica. Sua mo pousava na mo forte. Dedos firmes seguravam-na pela cintura, apertando-a contra um corpo musculoso. Travis... Ela fechou os olhos, deixando-se envolver pelo sentimento embriagador.
A boca tocou-lhe a testa, as plpebras, desceu at o pescoo. Sabia o que iria acontecer, e incapaz de resistir, entreabriu os lbios para receb-lo. O calor do beijo provocava ondas de prazer. Gemendo, rodeou-lhe o pescoo com as mos, puxando-o para si. A msica foi desaparecendo, as luzes, tudo. At que s havia Travis, seu corpo, os braos fortes que a envolviam.
De repente, o som de risadas explodiu ao redor deles. Chocada, tentou afastar-se, mas ele a impediu.
	Qual  o problema, Edna Rae? No foi isso que sempre quis?  zombou, rindo.
Soltando-se do abrao, percebeu que usava o velho suter marrom e a saia larga. Os cabelos escorridos estavam presos por uma fivela, e o rosto sem maquiagem parecia ainda mais branco  luz do salo.
Todos os danarinos estavam  volta dela, rindo, zombando.
	Parem!  gritou.  Parem, por favor!  pediu, tentando romper o crculo.  Deixem-me em paz!
O alarme do despertador disparou, interrompendo o pesadelo. Procurando o boto para deslig-lo, na semi-escurido do quarto, sentou-se na cama. Pela janela podia ver as primeiras luzes do amanhecer. Estava exausta, j que mal havia dormido, mas eram cinco e meia da manh e precisava se levantar.
Atravs da parede, ouviu a me acordar e espreguiar-se. den bocejou, levantando. Era melhor andar depressa, j que deviam estar em Provo por volta das nove horas. Ao viajarem naquela hora da manh, evitariam o calor e o trfego.
Depois de pentear os cabelos, pegou na maleta uma cala jeans branca e uma camisa azul. O sonho j estava desaparecendo da mente de den, mas suas mos ainda tremiam ao abotoar o suti e vestir a camisa.
Esquea, disse a si mesma. O sonho  apenas uma maneira de limpar a mente de velhas lembranas que j no servem mais.
Mas o sonho a perturbara muito mais do que gostaria de admitir. O beijo de Travis tinha sido o paraso. E quanto ao resto...
	Querida, j sa do banheiro  disse a me, atravs da porta fechada.  Ande depressa! Assim que acabar de me vestir, vou descer e fazer caf e torradas com canela.
	Obrigada.  den passou pelo corredor na direo do banheiro. Ao olhar-se no espelho, quase levou um susto. Os olhos avermelhados revelavam a noite insone. Jogou gua fria no rosto, inclinando-se para colocar as lentes de contato.
Como seria beijar Travis, de verdade?, perguntou-se equilibrando a pequena lente na ponta do dedo. Por que fazia perguntas to tolas?
Mas como seria? Estranho? Banal? Enlouquecedor? Perdida em pensamentos, inclinou-se para o espelho e resmungou uma praga quando a lente escorregou dentro da pia.
O que estava acontecendo com ela? Tentava encontrar a resposta enquanto recolhia com cuidado a lente que cara. Tra-vis era apenas um homem apegado s razes, que nunca ousara deixar para trs a velha cidade natal. O que poderia esperar de um homem como ele? E por que continuava pensando nele?
	Posso preparar sua torrada, querida?  perguntou a me, chamando-a desde o andar de baixo.
den colocou as lentes depressa.
	Deixe que eu mesma fao quando descer  gritou em resposta.
	Quando voltarmos ter bastante trabalho  retrucou Madge Harper.  Deixe-me fazer alguma coisa enquanto posso.
	Nem adianta discutir, no ?  den escovou os dentes e passou um batom claro nos lbios. Depois cuidaria do resto da maquilagem, mas naquele momento no queria deixar a me esperando.
Vinte minutos mais tarde, o Buick verde percorria a estrada de pista nica, que conduzia  rodovia interestadual. den dirigia com o vidro abaixado, a brisa fresca da manh desmanchando-lhe os cabelos.
	Nem perguntei como veio para casa ontem  comeou a me, em um tom casual que no a enganou nem por um segundo.  Algum lhe deu carona?
	Travis Conroy. Estava no aeroporto, esperando a filha  respondeu den, tentando manter a voz neutra.
	Bem que pensei ter reconhecido o barulho da velha picape. E possvel ouvi-lo a trs quarteires de distncia. Com as economias que tem no banco, qualquer um teria comprado uma caminhonete nova.
	Ento, como foi seu encontro com Rob?  perguntou den, mudando propositadamente de assunto.  Foram a algum lugar interessante?
	Ns... s conversamos.  Madge Harper ficou em silncio, pensativa.
	Mame, h algo errado? O que houve?
	Cuidado com a velocidade, querida. H um patrulheiro que adora esconder-se na sombra daquelas rvores...
	Mame, eu fiz uma pergunta. H algo errado?
	Errado?  A me deu uma risadinha nervosa.  Sim, mas no comigo.  com voc que estou preocupada.
	Comigo?  den sentiu-se como uma garotinha de dez anos de idade.  Estou muito bem. E perfeitamente feliz.
 Bobagem! Basta olhar para voc.
	Pare com isso.  den tentou brincar.  So seis e meia da manh e no sou exatamente uma modelo.
	No  disso que estou falando. Desde que rompeu com Chet...
	Mame, eu no rompi com Chet. Ele acabou com o nosso relacionamento. Acho que eu no era mulher suficiente para ele.  Ela fez uma curva, desejando que a me tivesse falado sobre o tempo.  Quem sabe? Vai ver que no sou mulher para homem algum.
	 disso que eu estava falando, querida.  Madge suspirou.
  sempre dura demais consigo mesma. Talvez no tenha achado um homem que seja suficientemente bom para voc.
	Tem algum candidato em mente?  O tremor na voz revelava quanto o assunto a perturbava.
	Nenhum que voc no rejeitasse de imediato. Mas no  essa a questo.  uma mulher adorvel, e tem muito para dar, mas estou preocupada desde que terminou o noivado. Qualquer um pode ver que trabalha demais, no se cuida...
	Mame, sou uma mulher adulta e estou lidando com a situao da melhor maneira possvel. S que isso leva tempo.
	Amava Chet tanto assim?
	Pensei que o amava. Agora, j no sei.
	Francamente, no tive a melhor das impresses sobre ele.
	O qu?  den desviou-se de um pedao de pneu que estava sobre a pista.
	Bem, ele tinha boa aparncia, mas era um tanto pedante.
	Pedante?
	Era esperto, ambicioso, qualquer um podia notar. Mas parecia pensar s nele mesmo. Na carreira dele, nos planos dele, nas preferncias dele...
	Ser que precisamos discutir isso agora?
	Por que no?  Madge Harper riu.  Afinal no  sempre que tenho oportunidade de conversar com voc.
den gemeu baixinho, mas acabou sorrindo.
	Est bem. Mas ser que pode ir direto ao ponto?
	Posso, sim. Quando irei v-la feliz?
A pergunta da me atingiu-a como um golpe, e ela demorou para responder. Madge sempre fora franca e direta, mas at ento, procurara amenizar aquela caracterstica com muito tato. Agora, no entanto, no se preocupara em usar qualquer desculpa.
	Pode me dizer o que est acontecendo hoje?  perguntou, surpresa.
	Voc disse para ir direto ao ponto.  Madge alisou uma prega inexistente na cala de linho.
	Mas ser que precisava ser to direta? Sou bastante feliz. No  porque no me casei...
	Por acaso falei sobre casamento?
	Nem precisava. Sei que todas suas amigas tm netos, e que gostaria de tambm ter os seus. Sei que pensa que basta achar o homem certo, e tudo o mais se resolve.
	No  verdade, meu bem.  Madge estendeu o brao e deu um tapinha carinhoso no joelho da filha.  Vivi tempo suficiente para no ser to ingnua. Mas h algo que aprendi. Voc escolhe ser feliz ou infeliz.  preciso estar pronta quando as coisas boas acontecem. Temos de agarr-las, antes que desapaream.
	J disse que vou ficar bem  repetiu den, impaciente. E agora chega de discursos, est bem? Amo muito voc, mas  cedo demais para esses assuntos.
Estendendo o brao, ligou o rdio, esperando que o noticirio local, ou mesmo um programa de msicas pudesse distra-las e evitar a conversa. Mas ouvia-se apenas esttica, ou uma msica country misturada aos estalos. Suspirando, desligou o boto.
	Fale-me sobre a viagem com Travis at aqui  pediu Madge, quebrando o silncio.
Vamos comear tudo de novo!
	No h muito o que contar. A filha dele falou quase o tempo todo, e eu dormi quase toda a viagem.
	Dormiu mesmo? 
	Pare com isso, mame!  Mantendo os olhos na estrada, esperou que a me no percebesse como seu rosto estava corado.
	Sabe muito bem que nunca vou me sentir  vontade ao lado de Travis. Apenas me ofereceu carona, e aceitei sem pensar. A experincia foi to desastrosa que ns dois ficamos aliviados quando acabou.
E era verdade, pensou den, sem a menor vontade de contar os detalhes.
	H quanto tempo ele est sozinho? Nove, dez anos?
	No sei  disparou den.  E no perguntei.
Madge pegou um leno de papel na bolsa e assoou o nariz.
	Metade das mulheres da cidade j tentou conquist-lo. E acredite, se fosse vinte anos mais jovem, eu tentaria conquist-lo tambm. Um homem to bonito e atraente!
	Mame!
	Muitas delas teriam sido esposas excelentes. No sei o que ele est esperando.
	Pelo menos isto eu sei  informou den.  De acordo com a filha, Travis no se casou novamente porque ainda ama a me dela.
	Diane?  O tom de Madge era de completa descrena.  Nem posso imaginar isso. A filha pode querer pensar que o pai ainda ama a me dela, mas no  verdade. Diane Conroy era uma mulher atraente, mas detestava Monroe e tudo que h por ali. Quando Travis no quis partir, falou mal dele para toda a cidade. Por fim, foi para casa visitar a famlia e envolveu-se com o homem com o qual est casada agora. Travis sofreu muito, mas, no ntimo, acho que no sentiu tanto a partida dela.
	Como soube disso?
	Marvella Johnson me contou.  minha cabeleireira h quinze anos, e tambm cuida dos cabelos de Janice Woodard, que  casada com o primo de Travis, Bert e...
	No importa! J entendi.  den sacudiu a cabea.   incrvel! Todas as pessoas da cidade s fazem fofocas!
	Ora, querida, no exagere. No  fofoca. As pessoas apenas se importam com as outras. Gostamos de saber o que est acontecendo para poder ajudar...
	Sei...
	Est morando h muito tempo em Nova York, meu bem.  Madge deu outro tapinha no joelho da filha.  Agora, se me der licena, vou dormir um pouco. Vai ser um longo dia.
Ela pegou um travesseiro pequeno dentro da valise de mo e acomodou-o contra a janela, ajeitando a cabea sobre ele. Em poucos instantes estava dormindo, ou fingindo que estava.
den procurou os culos escuros dentro da bolsa e colocou-os para evitar os fortes raios dourados que comeavam a brilhar no cu, cheio de nuvens cor-de-rosa. O amanhecer estava to lindo, que uma emoo intensa dominou-a. Observou o sol erguendo-se no cu, pouco a pouco, at iluminar completamente a manh.
Precisamos estar prontos para agarrar as coisas boas, quando aparecem a nossa frente.
Quantas vezes perdera um lindo amanhecer como aquele? Quantas experincias maravilhosas deixara de aproveitar porque no soubera reconhec-las?
Afinal, o que estava acontecendo? Ser que no conseguia mais pensar com bom senso? Precisava voltar depressa a Nova York, ao trabalho. Sentia-se bem atrs de sua escrivaninha, com uma pilha de trabalho a sua frente. Ali, era den Harper, fria, competente e bem-sucedida. Em Utah, por outro lado, no tinha certeza de nada.
Ser que a me pretendia empurr-la para Travis? Ser que fora aquele o motivo de toda a conversa?
S podia ser brincadeira! Travis no estava mais interessado nela do que ela nele. E se um dia, que por certo no existiria, ele se interessasse por ela, como poderia pensar em viver naquela cidadezinha onde sofrera tantas humilhaes? No podia nem imaginar! Sempre desejara um lar, uma famlia, mas nunca ali!
Procurando outro assunto para ocupar-lhe a mente, lembrou-se do manuscrito que trouxera para analisar e que estava dentro da pasta. Trabalho. Era sempre o melhor remdio. Se acabasse aquele manuscrito, pediria a Gordon, seu assistente na editora, que lhe enviasse mais alguns.
Quanto ao sr. Travis Conroy, j o vira o suficiente. Ele podia ficar com o rancho, com a filha e tambm com o bando de mulheres que fazia tudo para conquist-lo.
Ela, com certeza, jamais faria parte daquele grupo!

CAPITULO V

O dia inteiro havia sido um completo desastre, Travis no conseguia entender como tudo acontecera.
Para comear, Nicole recusara-se a levantar antes das oito para cavalgar. Alguns anos atrs, ele a teria tirado da cama jogando no cho as cobertas, e os dois acabariam dando muitas risadas. Agora, no entanto, a ideia no parecia muito boa. Em vez daquilo, andara de um lado para o outro na cozinha, vendo as panquecas secarem e ficarem intragveis.
As oito e quarenta e cinco, finalmente, ela aparecera, maquiada demais, e usando um jeans to apertado que mal conseguiu montar o cavalo. Emburrada e silenciosa, cavalgara ao lado dele na manh ensolarada. As poucas tentativas para comear uma conversa tiveram como resposta apenas alguns resmungos.
Afinal, nem chegaram ao desfiladeiro, uma vez que Tucker, o cavalo dcil e obediente que Nicole montava, perdera uma ferradura no caminho. Tinham voltado para casa e comido os lanches na mesa da cozinha.
Travis pensou que o pior havia passado, mas estava enganado.
Depois do almoo, Nicole disse que gostaria de nadar na piscina da cidade, em Richfield. Ele concordara, achando que seria bom para ela conhecer pessoas da mesma idade. Depois de deix-la na entrada do clube, fora fazer compras. Uma hora mais tarde, ao voltar, vira dois carros de polcia, com as sirenes tocando, estacionando em frente  entrada. Muitas pessoas corriam para o local.
 O que est acontecendo?  perguntou, agarrando o brao de um garoto que passava correndo.
Uma briga. Dois garotos comearam a brigar por causa de uma menina, e logo todo mundo entrou na briga.
Com o corao aos saltos, abriu caminho at a piscina. A briga cessara com a chegada da polcia. Um garoto do colegial tinha sangue escorrendo pelo nariz, outro jogava gua fria no olho inchado. Travis procurou freneticamente por Nicole. Talvez estivesse assustada, ou ferida...
E ento a viu.
Apoiada na escada da piscina, com os grandes olhos castanhos arregalados, usava um biquini laranja to minsculo que mal cobria o essencial.
	 ela!  gritou um garoto.  Aquela de laranja. A briga foi por causa dela!
O resto da tarde tinha sido terrvel. Tirara Nicole dali e a levara para casa, controlando-se para no lhe dar uma boa surra.
	Mas, papai... ^- reclamou.  Todo mundo usa biquinis assim na Califrnia!
	Fique quieta  resmungara.  Aqui  Utah. As pessoas so conservadoras. Se quer fazer amigos, ter de se adaptar aos costumes deles.
	No  justo! Est me pedindo para que finja ser o que no sou.
	Estou pedindo que fique quieta!
As palavras furiosas ainda ecoavam-lhe na mente, ao limpar a cozinha. Do quarto, no andar de cima, vinha o som do ltimo rap de sucesso, to alto que quase fazia tremer as paredes. Uma hora antes deixara uma bandeja com lasanha e po de alho do lado de fora da porta fechada. A bandeja desaparecera, mas Nicole no falara com ele.
Deveria ter lidado melhor com a situao. Deveria ter tido mais pacincia e conversado com a filha. Em vez disso, apenas a recriminara sem lhe dar chance para uma explicao.
Fechando a porta da lavadora de louas, no sabia como agir. Podia subir e pedir desculpas. Mas no tinha feito nada que justificasse aquilo. E ainda acabaria perdendo a autoridade.
Tambm podia telefonar para Diane, em Newport, e perguntar-lhe como lidaria com a situao. Mas a ltima coisa que queria era admitir para a ex-mulher que no sabia lidar com a prpria filha.
Podia arrumar uma amiga para Nicole, convid-la para ficar no rancho. Mas no era fcil. Nos anos anteriores, Nicole fizera poucas amizades entre os jovens da cidade. Kim Driscoll, a nica garota com quem tinha amizade, mudara para Wyoming com a famlia, no ltimo outono.
Restava apenas den Harper,
Travis olhava para o telefone, desesperado. Seria apenas coincidncia o fato de ter encontrado Rob Peterson naquela tarde, e ele ter mencionado o fato de que ela ficaria no Holidday Inn, enquanto a me estivesse no hospital? Talvez devesse ligar para den.
Ligando para a telefonista, pediu o nmero do hotel. Depois de faz-lo, no entanto, parou por alguns instantes, incerto quanto ao que devia fazer.
O que iria dizer? Usaria todo seu charme para convenc-la a ajud-lo? Deveria se mostrar desesperado?
den Harper era uma mulher experiente e no se deixaria enganar.
E se ela ouvisse o que tinha a dizer? E se concordasse em ajud-lo? Travis hesitou, afastando-se do telefone. No importava quanto precisasse de ajuda, no tinha o direito de envolv-la em seus problemas. Acharia que estava sendo usada, e acabaria odiando-o. Isto , se j no o odiasse.
No. A ideia era uma loucura e jamais daria certo.
Nicole acabara de desligar o som, e Travis dirigiu-se  varanda. Ali, ouvindo os sons familiares, os grilos cantando e o vento soprando nos campos de alfafa, sentiu-se frustrado, infeliz, e muito solitrio.
Na verdade, queria ver den por razes que nada tinham a ver com Nicole. Ele gostava de den. Era inteligente, engraada, to tentadora quanto uma torta caseira de pssegos com sorvete.
Lembrava-se do riso sensual, rouco, e viu-se desejando ouvi-lo novamente. Sem querer, imaginou-a em seus braos, o corpo moldando-se ao dele, os cabelos sedosos roando-lhe o queixo, at que encontrava os lbios macios...
Estava fantasiando sobre Edna Rae, lembrou-se, de repente. S que aquilo no importava. Queria v-la de novo, conhec-la melhor, como no fizera no tempo da escola. Se falassem de Nicole, tudo bem. Mas no iria envolv-la em problemas familiares que eram sua responsabilidade. Teria que encontrar um modo de lidar com a filha.
Criando coragem, foi at o telefone e discou para o hotel. 
O telefone tocou quando den saa do chuveiro. Agarrando uma toalha, atravessou o quarto, deixando uma trilha molhada sobre o tapete. Talvez fosse a me ou o mdico.
Inclinando-se sobre a cama, pegou o telefone.
	Al  atendeu, ofegante.
	Voc sempre atende o telefone ofegante!
A voz inconfundvel era to ntida, que parecia estar ali, no quarto. Em pnico, den apertou a toalha contra os seios nus.
	Travis?  voc?
Que pergunta inteligente! Edna Rae est agindo de novo!, pensou, sem saber o que falar.
	Estava esperando outra pessoa?
	No, ningum em especial. Como soube onde eu estava? a pergunta foi entrecortada por um soluo.
	Rob me contou quando nos encontramos na cidade. Parece nervosa. Est com problemas?
	No. S estou molhada,  isso. Espere, vou pegar o roupo. Largando o fone sobre a cama, pegou o roupo na valise aberta e vestiu-o no corpo trmulo pelo frio que vinha do ar-condicionado. Era evidente que Travis iria lhe pedir algum favor. Que outro motivo teria para fazer um interurbano?
	Como est sua me?
	Bem, considerando-se a situao. A cirurgia ser amanh s seis. O mdico deu um sedativo para ajud-la a dormir.
	E como voc est?  O tom de voz de Travis fez den estremecer. Podia imagin-lo, segurando o fone contra o ombro, a barba por fazer, os lbios em um meio sorriso. Era capaz de conquistar qualquer mulher. Exceto ela.
	Estou bem  respondeu, secamente.  Mas acho que no telefonou para saber isso.
O silncio do outro lado mostrou-lhe que estava surpreso com sua reao. Muito bem. Daquela vez era den Harper quem estava falando.
	Na verdade tenho uma boa desculpa para telefonar. Estou na comisso organizadora da festa do colgio, no dia 5 de julho, e precisamos saber quantos viro at amanh  noite. Recebeu o convite?
	Convite?  Percebendo onde a conversa ia lev-los, estremeceu.  Sim, mame mandou para mim.  Ela riu, fingindo despreocupao.  E agora est no depsito de lixo de Nova York.
	Voc no vai?  Travis hesitou, e ento insistiu.  Tem de ir! Todos vo ficar surpresos ao v-la!
	No!  den percebeu que estava sacudindo a cabea como se ele pudesse v-la. Respirando fundo, controlou-se antes de responder.  No tenho a menor inteno de ir  festa para ser vista como a atrao do circo. J representei esse papel muitas vezes no colgio.
A resposta pareceu surpreend-lo, e demorou alguns instantes para continuar.
	Era assim que voc se sentia?
	No era assim que voc me via? Vamos, diga a verdade.
O silncio foi to longo que den desejou no ter perguntado. Uma eternidade passou antes que ele respondesse.
	Para falar a verdade, acho que mal a via naquele tempo. S a vi realmente saindo daquele jato, linda, confiante, sensual e...
	Pare com isso!  O rosto de den estava corado.  Estamos falando bobagens, e sua conta de telefone vai ser absurda.
	Pensa que vou deix-la escapar facilmente?  O tom de zombaria tinha voltado.  Vou inclu-la na lista. Assim, se mudar de ideia...
	No vou mudar de ideia! Prefiro ser comida viva!
	Que ideia interessante!
	J acabou?  den sentia o rosto quente e vermelho.
	No. A reunio foi s uma desculpa para telefonar. A verdade  que liguei para pedir desculpas. Tinha razo ontem  noite. Peo que me desculpe.
	Tinha?  repetiu den, confusa.
	Espero que aceite jantar comigo quando voltar a Monroe para me desculpar pessoalmente.
Jantar? A garganta de den estava seca, e o corao batia disparado. Travis Conroy acabara de convid-la para um encontro.
Sei que Sevier County no se compara a Nova York, mas conheo um iugar aconchegante, que serve costelas deliciosas, E tem aquelas velhas mquinas com moedas, onde podemos escolher as msicas e danar, se voc quiser.
lima onda de pnico envolveu den, que respondeu hesitante. 
	Eu... Nunca aprendi a danar.
	Porque nunca teve um bom professor.  A voz era calorosa, cheia de promessas.
	E Nicole? No pode deix-la sozinha.
	Ela vai adorar assistir a um bom vdeo ern casa, com uma pizza ao lado. E ento, aceita?
den engoliu em seco, dizendo a si mesma que deveria ter bom senso. Travis queria alguma coisa mas no estava interessado nela. Se aceitasse, acabaria magoada outra vez.
	No acho boa ideia  respondeu.  As pessoas vo falar.
	E da? Somos solteiros, livres, maiores de idade.
	No sei...
	Voc  uma mulher atraente, intrigante e incrivelmente sensual, den Harper. Se desejar conhec-la melhor  crime, ento sou culpado.
	No  isso.  Ela lutava contra as emoes   mame. Vai precisar de mim.
	Sim ou no?
	Eu... No! Sinto muito, no posso.
	Est bem.  Travis suspirou.  Entendo que est ocupada e no tem tempo. Mas, se mudar de ideia, o convite est mantido.
	Obrigada.  No queria, no podia mudar de ideia.  E Nicole, como est?
	Bem. Vou dizer que perguntou por ela.
	Mande um abrao.
	Vou mandar.  den percebeu que tinha muito mais a dizer, e que faria aquilo se ela lhe desse qualquer chance.
Por urn instante, hesitou, os lbios entreabertos, apenas imaginando o que aconteceria se...
Mas no podia correr o risco. Travis Conroy despedaaria seu corao e iria embora sem olhar para trs. Dezesseis anos atrs faria qualquer coisa para t-lo, mas agora era uma mulher experiente e no deixaria expor ao ridculo facilmente.
	Tenho de desligar  murmurou.  Meu cabelo est pingando gua sobre a cama.
	Est bem.  den acreditou ter sentido um certo alvio na voz dele.  D lembranas a sua me.
	Obrigada. Ela vai gostar.
Ela desligou com a mo trmula. Sentada  beira da cama sentia-se miservel, louca de vontade de ligar novamente e perguntar que roupa deveria usar para o jantar. No, nunca daria certo. Um encontro com Travis poderia ser emocionante, mas acabaria pagando um preo muito caro por aquela extravagncia.
Era melhor no arriscar. Pegou a toalha para secar os cabelos. Estava acabado. Travis podia ter todas as mulheres que desejasse. Por que ia querer Edna Rae Harper?
No sabia a resposta, mas tinha certeza de que ele nunca mais voltaria a telefonar. Se algum dia tivera alguma chance com Travis Conroy, acabava de jog-la no lixo.
Papai?
A voz assustou Travis que acabava de desligar o telefone. Virando-se, viu Nicole parada junto  escada, vestida com o velho roupo de flanela xadrez, segurando o ursinho de pelcia que lhe dera no aniversrio de trs anos. Com o rosto lavado, mais parecia uma garotinha de dez anos. O corao dele encheu-se de ternura.
	Estava ligando para den?
	Sim. Ouvi seu conselho e decidi convid-la para sair.
	E ento?
	Disse que est muito ocupada.  Travis escondeu a decepo com um sorriso.  Parece que voc vai ser minha companhia de vero.
	Sempre serei sua companheira, papai.  O sorriso de Nicole era encantador.  Mas den gosta de voc. Ela me disse.
	Pois parece que mudou de ideia.  Travis sentou-se em uma poltrona.  Tenho uma ideia. Vamos fazer de conta que os dois ltimos dias no existiram. Que voc acaba de chegar.
	Est bem. Posso pegar bolo de chocolate e um copo de leite?
	E claro. Eu mesmo pego para voc.  Travis levantou-se depressa, colocando o doce em um prato e enchendo um copo de leite.  E amanh? Podemos ir at Wayne County procurar pedras. Lembra-se daqueles geodos incrveis que achamos alguns anos atrs?
Nicole estava sentada  mesa e quase acabara de comer.
	Era sobre isso que queria conversar, papai.
Travis sentou-se  frente dela, sentindo-se feliz com a oportunidade. Queria conversar. Tudo daria certo. Ao menos entre ele e Nicole.
	Podemos fazer o que voc quiser, querida. Apenas escolha.
	E mesmo? Posso fazer o que quiser?  Ela tomou um gole do leite, olhando-o por sobre a borda do copo com os imensos olhos castanhos.
	 claro, pode escolher.
	Bem...  Nicole engoliu o ltimo pedao de doce.  Conheci um garoto realmente incrvel na piscina. O nome dele  Turk. Tem uma tatuagem fantstica e  to lindo!  Ela parou, percebendo que as palavras no eram as melhores para explicar-se ao pai.  Bem, ele  muito legal. O primo dele tem um desses jipes novos e, amanh  tarde, iro at as colinas. Turk me convidou para ir junto.
Travis ficou mudo, sentindo-se tolo e ingnuo, diante do olhar desaiante da filha. Percebendo que o pai hesitava, a garota insistiu.
	Disse que eu podia escolher. Voc prometeu.
Travis sacudiu a cabea, sabendo exatamente o que deveria responder. Como pai, s havia uma atitude a tomar.
	 verdade, eu prometi. Mas  uma promessa que preciso quebrar. Sinto muito, Nicole. Voc s tem catorze anos,  jovem demais para passear pelas colinas com um jovem desconhecido.  A resposta  no.
	No  justo! Voc me trata como se eu fosse criana! No sou mais sua garotinha!
	Nicole...  O olhar era uma advertncia, mas a menina ignorou-o.
	No! Vai ter de me ouvir! Eu era uma garotinha, e voc era tudo para mim. Fizemos muitas coisas juntos. Mas agora cresci. Tudo mudou. Precisa ter sua prpria vida, papai. Talvez assim eu possa ter minha prpria vida tambm!
Atirando o ursinho contra o peito dele, saiu correndo pela porta da cozinha. Travis continuou sentado, ouvindo a porta bater atrs dela, chocado demais para reagir.
Do lado de fora, ouviu o motor da picape sendo ligado e lembrou-se, tarde demais, que havia deixado a chave no contato.
Nicole! Volte aqui! Voc no pode...
As palavras perderam-se no ar quando a picape desceu a rampa que levava  estrada, indo bater em um poste de concreto, onde parou com o radiador arrebentado, soltando fumaa.
	Sua me est na terapia intensiva. Ela vai ficar bem  informou o mdico, ainda usando as roupas de cirurgia.  Estava preocupado com o cncer, mas felizmente no havia se espalhado. Pudemos tirar tudo.
	Cncer?  A revista que estivera lendo escorregou do colo de den.  O que est dizendo? Pensei que fosse uma cirurgia de rotina.
	Sua me no contou?
	No. Quando posso v-la?
	Ainda est voltando da anestesia. Sente-se e acalme-se. Dentro de alguns minutos mandarei a enfermeira cham-la.
Sentindo os joelhos trmulos, den sentou-se no sof, enquanto o mdico desaparecia no corredor. Como no percebera que havia algo errado? A preocupao de Rob, a estranha conversa da me no carro? Ser que estava to preocupada com Travis que nem conseguia ver mais nada?
As lgrimas encheram-lhe os olhos. No tinha importncia agora. O mdico tinha dito que a me iria ficar bem. Mas, e se as coisas houvessem sido diferentes?
Incapaz de continuar sentada, caminhou at a janela, olhando pra os canteiros cheios de petnias que cercavam o hospital.
Que tipo de filha tinha sido at agora, vivendo em Nova York, vindo para casa uma vez por ano? A me dedicara seus melhores anos para cri-la, e como retribua a tanta dedicao? Era egosmo viver to longe, em Nova York, quando podia escolher outro emprego, em uma cidade mais prxima.  claro que no poderia viver em uma cidadezinha como Monroe, mas Salt Lake City no seria to ruim. Encontrar um novo trabalho no seria difcil para algum com um currculo como o dela, com tantos anos de experincia e sucesso. Se fizesse aquilo, poderia visitar a me mais vezes.
A ideia fazia mais e mais sentido, enquanto andava de um lado para o outro na sala de espera. Madge Harper vivera sozinha tempo demais. Agora tudo ia mudar. Poderiam ir juntas ao cinema, a concertos...
	Srta. Harper?  A voz da enfermeira interrompeu as divagaes.  Sua me acordou e quer v-la. Pode ficar com ela alguns minutos. Venha comigo.
den quase correu pelo corredor. A garganta apertou-se ao acompanhar a enfermeira que a conduziu at as cortinas azuis que separavam os pacientes na unidade de terapia intensiva.
	Mame?
A me parecia pequena e frgil, mas os brilhantes olhos azuis continuavam cheios de vida. Tudo ia ficar bem. Ela estava esboando um sorriso.
	Ol, querida  murmurou, sonolenta.
	Por que no me contou?  den segurou a mo fria da me.
	Para qu? Para deix-la preocupada sem motivo? O mdico j disse que provavelmente viverei at os noventa anos.
	Voc contou a Rob, no ? Por isso parecia to preocupado.
	Rob precisava saber.  Madge apertou a mo da filha, enquanto uma expresso de felicidade refletia-se em seu rosto.
 Rob me pediu em casamento h duas semanas. Disse a ele que minha resposta dependeria do -resultado da operao.
den piscou, pega de surpresa pela notcia.
	Mame, tem certeza de que...
	Pare com isso, meu bem  Madge falou baixinho, em um tom de conspirao.  Aceitaria ser dama de honra do casamento, em setembro?

CAPITULO VI

A volta de Madge para casa foi um acontecimento social na cidade. No que den houvesse planejado assim, j que preferiria chegar tranquilamente, acomodar a me e deix-la descansar o resto da tarde.
Em poucos minutos, Rob Peterson apareceu, sorridente, mal escondendo a felicidade e trazendo uma caixa de veludo. Com as mos grandes e desajeitadas colocou o anel de noivado no dedo de Madge. Os dois estavam to felizes que chegavam a brilhar.
Emocionada, den pediu licena e fugiu para a cozinha para fazer limonada. Cinco minutos mais tarde, a campainha tocou, e Eila Skidmore apareceu trazendo pes quentinhos. Durante a hora seguinte den atendeu a porta sem parar, serviu limonada e agradeceu as guloseimas que as pessoas traziam. Felizmente todos estavam to encantados com o diamante de Madge que nem precisavam de ateno. Parando para descansar um pouco, olhou pela janela e viu uma figura esguia sentada no gramado em frente  casa.
	Nicole?  den abriu a porta e saiu na varanda.
	Ol!  Nicole olhou-a por sobre o ombro. Usava bermudas, camiseta amarela e sandlias. As pernas bronzeadas estavam cobertas de p e no havia sinais da picape de Travis.
	Que surpresa!  exclamou den.  Como veio at aqui?
	Andando.
	Desde o rancho?  A distncia era maior de quatro milhas.
	Sim  murmurou Nicole.
	Deve estar com calor. No quer entrar?
	No, obrigada. Parece que j tem bastante companhia.
	As visitas so para minha me. Aceite pelo menos limonada e biscoitos.  Sem esperar resposta, entrou na cozinha e pegou a limonada e alguns biscoitos, imaginando se Nicole iria esperar. Ao voltar a garota continuava ali, imvel. den entendeu que a menina queria conversar. Ofereceu-lhe o lanche.
	Obrigada  Nicole pegou o copo e mordeu um biscoito, enquanto den sentava-se do degrau da varanda.
	Seu pai sabe que est aqui?
	No. E se soubesse no se importaria. E o pior homem do mundo. Sabe o que fez?
Problemas era a ltima coisa que den gostaria de enfrentar depois de um dia to exaustivo. Mas no podia negar ajuda.
	Est bem, conte-me.
	Trancou-me no rancho por duas semanas! Naquele rancho chato, sem amigos, sem nada para fazer. Preferia estar na cadeia, a po e gua. Preferia morrer!
	O que fez para deix-lo to zangado?
	Nada! S amassei aquela picape velha!
	Amassou! Como?
	Eu disse que sentia muito. Mas ele prefere aquela velha caminhonete a mim!
	Ento seu pai imagina que voc est no rancho?  Era hora de sair de cena. No queria se envolver em um conflito entre Travis e a filha.
	Est tudo bem. Avisei que ia dar uma volta. S no falei at onde.  Acabando de beber a limonada, estendeu as pernas sobre a grama, e s ento den percebeu como estavam os ps dela.
As tiras da sandlia tinham feito bolhas, e algumas sangravam nos ps empoeirados.
	Venha. Precisamos cuidar de seus ps.
	Vai chamar meu pai?  Os olhos da garota pareciam implorar.
	Sim. Deve estar preocupado com voc. Venha.  Estendendo a mo, ajudou-a a levantar-se. Nicole acompanhou-a, mancando.
	Antes de cuidar de meus ps posso usar o telefone?  um interurbano, a cobrar. No vai lhe custar nada.
	Posso saber para quem vai telefonar?
	Mame. Vou pedir-lhe que mude minha passagem e assim poderei ir embora amanh. Meu lugar  na Califrnia.
den lembrou-se da ansiedade de Travis no aeroporto.
	Nicole, seu pai...
	Ele no se importa! Vai ficar feliz se eu partir!
	Est enganada.  den ajudou a menina a subir a escada.
 No conheo seu pai muito bem, mas sei que a ama. E queria muito passar o vero em sua companhia.
	Voc est errada. Ele quer uma garotinha obediente, no eu. Posso usar o telefone?
	A resposta  no...  Levando Nicole para o banheiro, ajudou-a a desamarrar as sandlias.  No pretendo ficar entre voc e seu pai.
	Ningum me entende!  Nicole comeou a chorar, mas den resistiu  vontade de consol-la. Pelo que conhecia da garota, era capaz de manipular todo mundo facilmente.
	Vai arder um pouco  avisou, pegando o vidro de anti-sptico.
	Tudo bem. Sou mais forte do que pareo. Ai! Tenho uma coisa para confessar.
	O que ?
	Quando vnhamos do aeroporto... Ai! Eu disse uma mentira.
den espalhou o lquido sobre as bolhas, e, em seguida, comeou a fazer os curativos.
	Disse que papai ainda ama minha me, mas no  ver dade. Ele mal a suporta. E ela a ele.
	No tenho nada com isso...
	Tem sim. Foi por isso que no quis sair com meu pai?
	Meus motivos no lhe interessam  respondeu, seca mente, procurando esconder o rosto corado.
	Meu pai gosta de voc. Precisava ver a cara dele quando desligou o telefone. E voc tambm gosta dele.
	J chega!  den pegou as sandlias de Nicole, que no poderia cal-las at as bolhas sararem.  Vamos descer e comer um lanche. E ento pode escolher. Ou telefona para seu pai ou eu mesma fao isso.
	Pode ligar  A garota parecia frgil e triste.  Voc j fumou?
	Por alguns meses, quando estava na faculdade  respondeu, parando na porta.  Pensei que pareceria sofisticada, mas apenas me fez tossir. Depois de um tempo no suportava mais o cheiro de cigarro nas roupas e nos cabelos. Ento parei. Mais alguma pergunta?
	Sua me sabia?
	No. E este ser nosso segredo. Agora venha!  den puxou a camiseta de Nicole, brincando.  Vamos para a cozinha.
Travis estava colocando a nova mangueira do radiador, quando o telefone tocou. A princpio no ligou, imaginando que Nicole atenderia. Ento lembrou-se de que ela fora dar um passeio pelo rancho. Quanto tempo j se passara? Uma hora? Duas?
Largando as ferramentas, correu pelo ptio e subiu os degraus da varanda, atendendo o telefone na cozinha.
	Al!
	Travis,  den.
A voz era rouca e sensual, despertando-lhe sensaes perturbadoras. Mas ela j o rejeitara e era melhor controlar os hormnios.
	Travis?  ela insistiu diante do silncio dele.
	Sim, o que houve?  Ele procurava parecer casual, mas o que sentia era bem diferente. Gostaria que houvesse mudado de ideia quanto ao jantar, mas pelo tom da voz no era aquele o motivo do telefonema.
	Por acaso est procurando uma filha?
	Nicole? O que ela fez desta vez?
	Est aqui, sentada  mesa da cozinha, comendo o segundo prato de macarro.
Travis praguejou, baixinho.
	No lhe disse que est de castigo? Quero falar com ela!
	Em um instante. Eu queria que viesse busc-la. No tem condies de andar com os ps cheios de bolhas.
	O que houve?
	Andou at aqui. Pode vir peg-la?
O tom frio e formal irritou Travis.
	A picape est quebrada  retrucou.  Estou repondo as peas do radiador. A menos que queira que eu aparea a a cavalo.
	Coloque uma armadura e um elmo e ficar perfeito!
Pego de surpresa, viu-se dividido entre o aborrecimento e a vontade de rir.
	Hoje a nica coisa que me cobre dos ps  cabea  um monte de graxa  resmungou.  O que posso fazer para convenc-la a trazer Nicole?
	Acabo de trazer mame do hospital, e a casa est cheia de gente. Talvez...  ela hesitou, e Travis percebeu quanto desejava v-la de novo.  Talvez mais tarde.
	Obrigado.  Ele viu, de repente, que tinha sujado todo o telefone de graxa.  Que tal ficar para jantar?  ouviu-se perguntando.  Fao um ensopado especial.
	Eu no...
	No  um convite formal. Se quiser ficar, ser um prazer. O que havia de errado com ele? Parecia um calouro ingnuo, convidando uma garota para o primeiro encontro!
	Espere...  As palavras ficaram abafadas, como se estivesse cobrindo o fone. Ao falar novamente, parecia hesitante.  Mame est dizendo que Rob vai adorar ficar sozinho com ela. Ento...
	Otimo. Fico contente que possa vir.  A pulsao dele estava acelerada, como se tivesse corrido.  Que tal s sete? Se puder ficar com Nicole at l.
	Tudo bem, no h problema.
	Diga a Nicole que essa escapada vai lhe custar mais vinte quatro horas de castigo.
	Quer falar com ela?
Travis respirou fundo. Falar com ela ao telefone s pioraria a situao.
	Diga-lhe que conversaremos em casa  resmungou. 	den...
	Sim?  A voz era suave e sensual.
	Obrigado.
J estava escurecendo quando den manobrou o carro e atravessou a porteira do rancho. Uma estrela solitria brilhava no cu, e os pssaros notumos comeavam seus voos. No ptio deserto havia apenas a picape desmontada e dois cachorros, mas luzes brilhavam dentro da casa, com a enorme varanda ao redor.
O corao dela batia forte ao desligar o motor. Quando garota passara muitas vezes por ali, de bicicleta, mas aquela era a primeira vez que entraria na casa. Nicole continuou imvel, sem soltar o cinto de segurana.
	No quero entrar. E se ele gritar comigo?
	Acho que vai gritar ainda mais se voc ficar aqui disse, com firmeza.  Venha, e traga as sandlias.
Enquanto Nicole pegava as sandlias e atravessava mancando o gramado, den procurou controlar-se. Por certo iria se arrepender de ter aceito o convite, mas era tarde demais.
	Que cheiro delicioso!  comentou Nicole.  Estou morrendo de fome!
	Fome?! Voc comeu sem parar a tarde toda!  Ela, no entanto, no comera nada, e sentia o estmago contorcer-se. No sabia se era fome ou a perspectiva de rever Travis. Mas no importava o que acontecesse no se deixaria envolver por ele. -Jantaria, conversaria banalidades e iria embora.
Nicole adiantou-se e abriu a porta, mas logo parou e deu passagem a den. A luz espalhou-se pela varanda, e den entrou, atravessando a sala e chegando  cozinha espaosa. Os olhos dela percorreram as paredes claras, os tapetes feitos a mo, as cortinas de tecido xadrez vermelho e branco. E ento viu Travis.
Estava em p, ao lado do fogo antigo, mexendo algo em uma enorme panela de ferro.
	Ol!  cumprimentou, como se v-la ali fosse natural.  Estar pronto em alguns minutos.
	O cheiro est delicioso  a declarao foi acompanhada de um soluo.
	Obrigado.  Ele despejou uma quantidade generosa de molho de soja sobre a comida. Usava cala e camisa jeans, cujo colarinho aberto deixava ver a pele bronzeada. Os cabelos escuros e encaracolados estavam midos do banho, e fizera a barba.
	Posso ajudar?  ofereceu, surpresa com o desejo incontrolvel de tocar em um cacho de cabelos na nuca de Travis.
	No  preciso. Est quase pronto. E voc  a convidada. Sente-se.
Afastando-se do fogo, puxou uma cadeira entalhada que estava junto  mesa. Os braos fortes roaram os cabelos de den, enquanto ela sentava, causando-lhe sensaes perturbadoras.
Aceitar o convite no havia sido uma boa ideia. Deveria ter deixado Nicole em casa, inventado uma desculpa e sado rapidamente dali. Lutando para controlar as emoes, observou a mesa arrumada, os guardanapos dobrados e o pequeno vaso com flores do campo. 
	Puxa!  Nicole acabava de entrar na cozinha.  Quem vamos receber aqui?  alguma princesa?
	No, s minhas duas garotas favoritas.  A resposta no escondia como estava zangado.  V se arrumar. Conversaremos mais tarde.
	Est bem.  Ela saiu depressa da cozinha, e, poucos minutos depois, ouviu-se o rudo de passos e do chuveiro sendo ligado no andar de cima.
	Conte-me o que aconteceu  pediu Travs. Ele desligara o fogo, e apoiava-se no balco da cozinha, com os braos cruzados e uma expresso preocupada no rosto.
	Olhei pela janela, e Nicole estava l, sentada no gramado.
	Ela lhe contou que no podia sair do rancho?
	Disse que estava de castigo porque amassou a caminhonete.  den no queria envolver-se naquela briga.
	Droga!  ele resmungou.  No sei mais o que fazer com ela. Tudo que tento no d certo. ramos to amigos, e agora...
	Eu no...
	O que ela lhe disse?  Havia um brilho desesperado nos olhos escuros.  Ser que h alguma coisa que eu no sei?
den engoliu em seco ao lembrar-se do telefonema que Nicole queria dar para a me. Deveria contar a Travis?
	Nicole acha que voc no gosta dela agora. Que s quer sua garotinha de volta.
	Tudo que quero  v-la feliz. Por que  to difcil faz-la entender?
	 muito difcil ter catorze anos.  Sem querer, den viu-se estendendo a mo e tocando o pulso dele. A pele era quente, os msculos rijos.  No tenho filhos, mas lembro-me de meus catorze anos.  difcil quando se deseja ser mulher, mas no sabe como.  Ela parou e riu, baixinho.  Tinha a idade de Nicole quando comecei a escrever aquelas cartas para voc.
A expresso no rosto dele indicou-lhe no tinha gostado do comentrio. Ela afastou a mo, como se os dedos estivessem queimando.
	Sinto muito, eu no queria...
	Est tudo bem.  Virando-se para o fogo, Travis mexeu na frigideira.  Est dizendo aquilo que eu j sabia. As coisas devem piorar. Tenho medo de perd-la.
den sentiu como se um peso enorme casse sobre ela. Sabia que Travis queria alguma coisa, e imaginara que tinha algo a ver com a reunio da escola. Mas pelo jeito queria que o ajudasse com Nicole.
	Foi por isso que me convidou para sair?  perguntou, procurando no bolso as chaves do carro.  E por isso me convidou para jantar hoje? Para ajud-lo a lidar com sua filha?
	E claro que no.
	No acredito. No gosto que me usem, mesmo que seja por uma boa causa. E agora, se me der licena...  J estava se levantando quando ouviu os passos de Nicole na escada.
Travis lanou-lhe um olhar de advertncia, enquanto voltava a sentar-se e guardava as chaves. Era tarde demais para fugir e, com um suspiro de resignao, apoiou as costas no encosto da cadeira. De qualquer modo, no havia comido o dia todo, e a comida tinha um aroma delicioso.
Nicole entrou na cozinha, com os cabelos lavados, parecendo uma garotinha doce e inocente. Mas den no se deixou enganar. A menina sabia muito bem como controlar a situao.
	Que cheiro delicioso, papai!  exclamou, inclinando-se sobre o fogo.  Onde aprendeu a cozinhar to bem?
	Qualquer um pode cozinhar se tiver uma receita  resmungou Travis.  Voc mesma pode tentar.
	De verdade? Vai me deixar cozinhar? Quem sabe um jantar para voc e den?
	Sente-se, Nicole. Est pronto.  Ele pegou uma tigela sobre o balco e colocou o arroz. Sorrindo como um anjo, a garota sentou-se.
	E seus ps?  perguntou den.
	No poderei andar muito por alguns dias  respondeu Nicole, com um sorriso doce.  Mas posso cavalgar. Papai e eu vamos dar um passeio na quinta-feira. Por que no vem conosco?
den viu Travis piscar, incapaz de esconder a surpresa.
	Nunca montei um cavalo  declarou, e era verdade. Os garotos das fazendas e seus amigos saam sempre para passear a cavalo, mas Edna Rae nunca era convidada.
	Isso no  problema, no , papai?  continuou Nicole, animada.  Pode montar Tucker. Ele  velho e lento, nunca empaca.
	No  isso. Minha me acaba de sair do hospital. Preciso ficar em casa e cuidar dela.
Travis colocou sobre a mesa as tigelas fumegantes de arroz e ensopado de frango com legumes.
	Diga a prece de agradecimento, Nicole  murmurou, sentando-se  cabeceira da mesa.
den fechou os olhos e uniu as mos, enquanto Nicole dizia uma prece quase ininteligvel. J nem lembrava h quanto tempo ouvira uma prece de agradecimento pela refeio, mas ali parecia perfeitamente adequada.
Atravs das plpebras semicerradas observou Travis, a pele bronzeada, o rosto msculo, o queixo forte. Nada mudara, apenas estava mais velho, mais maduro, e precisava de ajuda. E ela continuava to vulnervel quanto antes.
	Estava espiando meu pai!  gritou Nicole, trazendo-a de volta para a realidade.
	Chega, Nicole!  O rosto de Travis estava vermelho sob o tom bronzeado.  Sirva-se, den.
Serviu-se de arroz e ensopado e estava com a garganta to seca que tinha dvida se poderia engolir alguma coisa.
	Venha cavalgar conosco  insistiu Nicole.  H muitas pessoas para tomar conta de sua me.
	Fique quieta.  O tom dele era perigosamente controlado.  Convidamos den para jantar conosco, no para se aborrecer. E alm disso, ela pode pensar que eu lhe disse para convid-la.
	E disse?  perguntou den.
	No  ele reforou a negativa, balanando a cabea.  Mas j que estamos falando no assunto, gostaria que viesse.
	No posso, j disse.  Ela no queria ceder quele convite.Tudo bem. Vamos jantar. Minha obra-prima vai esfriar.
Ela experimentou o ensopado. Estava delicioso, a carne macia, os vegetais suculentos, o molho...
	Papai, est delicioso como um orgasmo!  disparou Nicole.
Travis quase pulou na cadeira, e sem querer den comeou
a rir, quebrando a tenso. Por fim, terminaram a refeio, conversando como velhos amigos. Nicole comportou-se todo o tempo, ele estava alegre, e den s gaguejou duas vezes.
A sobremesa foi sorvete de baunilha com calda de chocolate quente. Quando terminaram de colocar os pratos na lavadora, Nicole anunciou que tinha uma surpresa.
Vo para a sala e sentem-se no sof  ordenou, sorrindo.  Volto j.
den lanou a Travis um olhar cauteloso, mas ele sorriu, satisfeito.
	Relaxe  sussurrou.  Sei qual  a surpresa. Voc vai gostar.
den sentou-se no enorme sof de couro, enquanto ele acendia o abajur. A sala era espaosa e a decorao era bem masculina, com tapetes Navajo, estantes cheias de livros e uma lareira de pedras. O nico objeto sobre ela era um porta-retratos com a foto dos pais de Travis.
	Posso ver o trabalho que teve para arrumar a casa  comentou den.  Trabalho e amor. E linda.
	Obrigado.  Ele sentou-se na outra ponta do sof.  Fiz quase tudo sozinho, aos poucos. Reformei as paredes, trouxe pedras do desfiladeiro para refazer a lareira, aumentei a janela da frente. Sei que construir uma casa nova daria menos trabalho, mas gostava tanto da antiga... Acho que valeu a pena.
	Seus irmos e irms costumam vir para c?
	No vem mais.  No silncio que se seguiu, ela percebeu a solido de um homem criado no meio de uma famlia grande e animada.  Todos tm suas vidas. E a minha  aqui, no rancho.
Naquele momento, Nicole entrou na sala, interrompendo a conversa. Trazia uma flauta prateada nas mos e sentou-se em um banquinho  frente deles. Levando o instrumento aos lbios, tocou uma nota to perfeita que den estremeceu. Percebendo aquela reao, a menina ergueu as sobrancelhas, do mesmo modo que Travis fazia, sorriu e comeou a tocar. Mozart. Ravel. Gershwin. Tocava maravilhosamente. Como um anjo, dissera Travis no aeroporto. Agora compreendia o orgulho dele ao falar na filha. Nicole tinha realmente um talento especial.
Olhando-o de lado, percebeu como a expresso do rosto se suavizara ao ouvir a filha tocando.
Tinha medo de perd-la, e den compreendeu, pela primeira vez, a ansiedade dele. Mas como poderia ajudar? O que sabia sobre adolescentes bonitas, inteligentes e teimosas como Nicole?
No, mesmo que soubesse como ajudar, seria tola em envolver-se em uma questo de famlia. No podia deixar que ele a usasse, mesmo por uma boa causa. O mais sensato era fugir, enquanto tinha chance. Nicole acabara de tocar. Satisfeita, pousou a flauta sobre o colo. den uniu-se a Travis em um aplauso demorado.
	Foi lindo, Nicole.
	Estou meio sem prtica.
	Obrigado pelo concerto, boneca.  Travis abraou-a com fora.
	Foi incrvel, mas tenho de ir agora. Mame deve estar preocupada.  Procurando as chaves no bolso, reconheceu que acabara de mentir. Quando a me e Rob estavam juntos nem viam o tempo passar.
	Vou acompanh-la at o carro. Nicole, se puder ir arrumando a cozinha...
	E claro. Obrigada pela carona, den.
	E obrigada pelo concerto.  Meio sem jeito, virou-se para Travis.  No precisa me acompanhar...
A mo forte segurou-a pelo cotovelo, com uma fora que chegou a surpreend-la.
	Ser um prazer.
	Boa noite!  despediu-se Nicole, fechando a porta da varanda atrs deles.
Estava sozinha com ele na escurido da noite.
Pretendendo despedir-se e sair correndo, virou-se de repente, e percebeu que ele estava mais prximo do que pensara. Um soluo nervoso escapou-lhe dos lbios, ao fitar os olhos escuros que estavam to prximos.
	Desculpe-me  murmurou, dando um passo para trs. O p escorregou no degrau e teria cado se ele no a segurasse.
	Cuidado.  Um sorriso refletia-se no rosto dele, acentuando as covinhas ao lado da boca.
Sabia o que devia estar pensando. Que ainda era uma garota tola e romntica, que faria tudo que ele quisesse.
	Preciso ir. Minha me...
	Sua me est com Rob. Pode esperar mais alguns minutos.  Afastando-se um pouco, indicou-lhe os degraus.  J que est aqui, deixe-me mostrar-lhe o rancho. Tenho orgulho dele e gostaria que visse o que fiz.
	Est escuro  protestou den.
	Venha. A lua est quase cheia.

CAPITULO VII

Travis conduziu-a pelo ptio, a ponta dos dedos mal tocando-lhe as costas. De vez em quando, olhava o perfil delicado, os lbios cheios, o brilho da lua nos cabelos. den Harper combinava com a luz do luar. Era uma mulher feita para beijar, para sussurrar palavras ternas, feita para o amor. Embora parecesse no perceber aquilo.
Gostaria de dizer tudo a ela, mas as palavras no seriam suficientes. Queria mostrar-lhe o que sentia. Queria toc-la, tom-la nos braos, beij-la at que os dois ficassem sem flego.
S que aquela no era uma boa ideia. den no confiava nele. E algo lhe dizia que no confiava em si mesma. Quando se tratava daquela mulher to especial era melhor ser cauteloso. Se conseguisse.
	O que houve com sua filha hoje  noite?  perguntou den, rindo baixinho.  De repente parece ter criado asas e um halo sobre a cabea.
	Tire suas prprias concluses.  s o que posso dizer.  Travis observou as luzes de um jato cortando o cu. Jamais lamentara ter voltado quela cidadezinha, mas s vezes imaginava se sua vida teria sido diferente em outro lugar.
	Pelo menos descobriu uma qualidade dela  comentou.  E foi responsvel por t-la trazido  tona hoje  noite. Obrigado por ter vindo.
den ficou rgida sob os dedos de Travis, que percebeu o movimento.
	Travis, eu...
	Olhe, uma estrela cadente!  Apontando o cu vazio, mentiu deliberadamente para evitar o que ela ia dizer. No queria ouvir que preferia no se envolver com Nicole nem com ele. S queria t-la por perto, ouvir-lhe a voz doce e sentir o perfume dos cabelos macios. Alguma coisa nele no suportaria v-la partir.
	Venha  pediu.  Vou mostrar-lhe os cavalos.
Construra o estbulo havia sete anos. Era espaoso, moderno, com luzes eitricas, gua corrente e baias para os cavalos premiados. Havia um celeiro para feno, ao lado da garagem onde ficava o caminho para transportar os animais. den piscou quando ele acendeu as luzes.
	 incrvel!  exclamou, surpresa ao ver a limpeza e a ordem dentro do estbulo.
	Esperava algo bem diferente, no ?  Feliz, sentia-se como um adolescente ao ganhar sua primeira bicicleta.  Estou contente que tenha gostado. Mas, quando se trata de cavalos,  preciso muito trabalho para manter tudo limpo.
Ela riu, aquele som suave, sensual que ele j conhecia. Sem querer, Travis imaginou como seria ouvi-la rir junto a seu ouvido, em um momento de intimidade, provocando-a para que risse outra e outra vez. Por um instante a cena foi to intensa que quase perdeu o flego.
O que estava acontecendo? Tinha achado den atraente desde que a vira no aeroporto, mas por certo no pretendia perder a cabea, e muito menos o corao.
Precisava pensar, avaliar a situao. No sabia ser paciente nem cauteloso. Em geral, quando queria alguma coisa, lutava at conseguir. Mas daquela vez era diferente. Ela era Edna Rae Harper.
Parada na porta, ela hesitava. Com uma ansiedade que no podia conter, segurou-a pelo cotovelo.
	Venha, vou lhe mostrar todo o time.
den caminhou pelo corredor entre as baias, tremendo ao sentir os dedos que tocavam-lhe as costas, provocando sensaes deliciosas. O velho co collie tocou-lhe a mo com o focinho, pedindo ateno. den acariciou-lhe a cabea, e Travis sorriu ao observ-la.
Tentando ignorar a proximidade dele, prestou ateno nos cavalos, elogiando-os. Na verdade, sempre tivera medo deles, desde um acidente que sofrera, aos trs anos de idade, durante uma parada no dia da Independncia. Um cavalo havia disparado contra as pessoas e a atirara no cho. No se ferira gravemente, mas o momento de terror continuava gravado em sua mente.
	Este  Jackknife  explicou Travis, parando ao lado de um cavalo esguio e alto.   castrado, j que no tem o perfil para exposies ou para cruzamentos. Mas no o venderia por dinheiro algum. E esperto, excelente para montaria.
den manteve-se a uma distncia segura.
	Parece que est me apresentando  famlia  murmurou, forando um sorriso.
	Acho que so mesmo da famlia  ele sorriu.  Com exceo daqueles quatro potros  esquerda. So filhos de Storm Cloud. Vou trein-los neste vero e podero ser vendidos no leilo de Amarillo. Com o dinheiro da venda, poderei manter o rancho no ano que vem. Por isso no quero me apegar a eles.
	E onde est Storm Cloud?
	Do outro lado. Venha.  Travis puxou-a pela mo, entrelaando os dedos nos dela, e as pernas de den fraquejaram.
	Olhe! O garoto tem um pedigree mais comprido do que seu brao.  Soltando-lhe a mo, abriu a porta da baia para que pudesse ver melhor. O garanho cor de prata ergueu a cabea e relinchou. No era to grande quanto imaginara, mas mesmo para algum sem conhecimento em cavalos como ela, era possvel perceber a fora, os msculos poderosos e a beleza do porte.
	Ele  como... uma esttua grega  murmurou, sem saber o que dizer.   veloz?
	Muito. Mas no posso arrisc-lo em uma corrida. E valioso demais. Venha, vou mostrar-lhe uma coisa.  Fechando a baia, conduziu-a para o outro lado, onde havia uma gua de olhar meigo, com a barriga enorme indicando que estava prestes a dar cria.
	Esta  Chocolate  explicou, com uma ternura que fez den estremecer.  No ltimo vero dirigi at o Tenessee para compr-la e traz-la para c. A linhagem dela unida a Storm Cloud...  Estendendo a mo, acariciou a barriga da gua.  Tenho muita esperana na famlia desta senhora e do namorado dela.
den deixou-o conduzi-la atravs do estbulo, procurando manter uma expresso neutra para esconder o pnico. Estava apavorada com os cavalos. E com a presena dele. S estaria a salvo no carro, a caminho de casa.
	E ali est Tucker  anunciou Travis, parando na ltima baia.  Foi um grande campeo em seu tempo. Agora est velho, mas  um animal excelente. To manso que qualquer pessoa pode mont-lo.
	Qualquer pessoa? At eu?  isso que est sugerindo?
	At voc. Quando quiser experimentar.
den espiou dentro da baia. Para ela, o velho Tucker era to amedrontador quanto qualquer cavalo. Ao v-la, sacudiu a crina e comeou a andar. Em pnico, deu um passo para trs, quase caindo nos braos de Travis.
Sinto muito  gaguejou, lutando para manter o equilbrio.
No estou acostumada com cavalos.
No fique nervosa. Tucker s quer que voc o agrade  insistiu, empurrando-a de leve.
Agrad-lo? den olhou a cabea enorme do animal, louca para sair correndo. S que Travis iria rir dela, e no queria aquilo.
Prendendo o flego, estendeu a mo e tocou a cabea de Tucker com a ponta dos dedos. A crina era macia, e ele se mexeu, tocando a mo dela com o focinho.
 to macio  sussurrou.  Nunca imaginei.
Satisfeito, Tucker virou-se e deu uma lambida na mo dela, que recuou assustada, de encontro ao peito de Travis.
Calma  ele riu, baixinho, segurando-a pela cintura. As mos eram firmes e clidas atravs do algodo fino da camiseta.
Est tudo bem. O velho Tucker gosta de voc.
	Bem, com certeza no me recebeu secamente  disparou den, enxugando a mo no jeans.  Sinto muito, mas no tenho jeito com animais, especialmente cavalos.
	Vamos, pode ficar amiga dele.  Ele aproximou-se ainda mais, empurrando-a gentilmente.  Respire fundo e tente outra vez.
den hesitou, o pnico nublando-lhe a mente. Entre Travis e o cavalo, no conseguia pensar direito.
	No quero tentar de novo  declarou.  Nunca gostei de cavalos, e ele parece sentir o mesmo por mim. J  hora de ir para casa.
	E s por causa do cavalo?
A pergunta pegou-a de surpresa. Ao virar-se, percebeu que continuavam bem prximos, o rosto perigosamente perto do dela.
No sei do que est falando  murmurou, virando-se de lado para esconder o rosto vermelho.
	Sabe, sim.  A mo dele tocou-lhe o queixo, erguendo-o delicadamente e obrigando-a a encar-lo.  Escute, den Harper.
 uma mulher linda, inteligente e gosto de voc! Tenho tentado conhec-la melhor, conversar, mas voc sempre foge como um coelhinho assustado. No vou mago-la. No sabe disso?
	Minha me diz que voc pode ter a mulher que desejar na cidade. Ento, por que eu? O que quer?  Ela hesitou, mas logo prosseguiu sem esperar resposta.   por causa de Nicole, no ? Pensa que posso ajud-lo? Bem, est enganado. No sei nada sobre adolescentes e...
	Voc fala demais, den Harper.
Pegando-a pela cintura, apertou-a contra o corpo forte. Ela nem pde protestar quando a boca impaciente de Travis cobriu-lhe os lbios.
No incio o beijo foi rude, selvagem, mas o contato dos lbios e corpos provocou uma onda de ternura em ambos. A resistncia dela desapareceu diante da nsia de Travis, e abriu os lbios correspondendo ao beijo com a mesma urgncia. Quantas vezes imaginara aquela cena? Os braos fortes a sua volta, os lbios ternos, exigentes.
A respirao de den ficou ofegante, quando Travis deslizou as mos pelas costas macias, pelos quadris, e depois chegando prximo aos seios. Queria que ele a tocasse em todo o corpo. Queria...
Um soluo nervoso escapou-lhe dos lbios, fazendo-a voltar  realidade. Era Edna Rae, a garota que ningum queria. Travis estava apenas se aproveitando do momento. No final iria rir dela. Alis toda a cidade iria rir.
	No!  den enrijeceu nos braos dele. Travis soltou-a, sem dizer nada, o rosto marcado por uma expresso sombria.
 No posso participar de seu jogo.
	Ningum disse que era um jogo.  A voz era rouca, e ele estava ofegante por beij-la.  No pode ir embora assim.
   Posso.  den tentava recuperar o bom senso.
Virando-se, saiu correndo do estbulo. Travis no a seguiu, mas podia sentir o olhar dele acompanhando-a, cheio de mgoa,  enquanto desaparecia na escurido  procura do carro.
O velho Buick estava destrancado. den entrou e bateu a porta. Ao ver-se no retrovisor percebeu que tinha os olhos iluminados, o rosto cheio de uma beleza radiante. E seu corao batia loucamente no peito.
Os beijos de Travis e a lembrana de como correspondera a eles, fizeram-na estremecer. Mesmo ali, longe dele, sentia-se fraca e tonta. No podia permitir-se sentir de novo a emoo de estar nos braos dele. Era perigoso demais. Precisava sair dali, depressa.
Virou a chave, mas nada aconteceu. Resmungando, tentou de novo. Nada. Ento, s para ter certeza, ligou os faris. Nada. Como pensara, a bateria estava descarregada.
Trmula e frustrada, viu Travis saindo da cocheira. Resignada, abriu o vidro e esperou-o cruzar o ptio, lentamente, como se estivesse passeando ao luar.
	O que houve?  perguntou, parando perto do carro.
	Bateria  respondeu, sem olhar para ele.
	Abra o capo para eu olhar. Tem lanterna?  Ele agia de modo frio e impessoal, como se os beijos nunca houvessem acontecido.
	Aqui.  Ela pegou a lanterna no porta-luvas.
	Desa. Precisa segur-la para mim.  Prendendo o capo, deixou-o aberto.  Espere, enquanto vou buscar a caixa de ferramentas. Se tiver sorte,  sujeira nos terminais.
Descendo do carro, den acendeu a lanterna. Nicole aparecera mancando na varanda, e ficou feliz ao v-la. As duas conversaram um pouco, at Travis aparecer com a caixa e abri-la no cho.
	Felizmente no ser difcil arrumar  resmungou, pegando uma chave de fenda.  Seno teria de ir para casa montando Tucker.
	Apenas arrume o carro. Por favor.  den iluminou a bateria. Um dos terminais estava coberto de resduos. No dia seguinte, trocaria a bateria por uma nova.
	Tucker  um amor, no ?  Nicole aproximou-se.  Sei que pode mont-lo, se tentar. E eu posso montar Moonfire ou Thursday, no , papai? Por favor, diga que sim. E voc tambm den.
Travis franziu as sobrancelhas, enquanto limpava os terminais.
	Voc pode montar Moonfire, mas quanto a den, no sei. Tucker gostou dela, mas parece que no foi correspondido. . Ele lanou um olhar na direo dela.  Para falar a verdade, acho que estava apavorada.
	Com Tucker?  Nicole olhava-a com expresso de surpresa.  Tucker no pisaria em um besouro, se soubesse que estava no cho!
den sentiu o rosto corado.
	No estava com medo. S estava sendo cuidadosa com um animal desconhecido.
Travis continuava limpando os terminais e comentou, sem erguer a cabea.
	Aposto que tem medo de mont-lo.
	No  isso.  den tinha vontade de torcer-lhe o pescoo.  Preciso cuidar de minha me.
	Sua me tem mais amigos do que qualquer outra pessoa na cidade.  s pedir, e ficaro felizes em cuidar dela.  Ele
ergueu o olhar por um instante.  No tem coragem de mont-lo, den Harper. Tenho tanta certeza que at proponho uma aposta. Pode pedir o que quiser.
den fitou-o diretamente. Sabia que a desafiava e no tinha jeito de escapar, a menos que reconhecesse que estava certo. A menos que pedisse algo que ele no pudesse aceitar.
	Muito bem  disse, por fim.- A sua velha picape.
Se eu montar Tucker ter de troc-la por uma nova, com ar-condicionado.
	Grande ideia!  Nicole aplaudiu.
Satisfeita, den percebeu que acertara o ponto fraco de Travis. Ele no concordaria com a aposta e no precisaria montar Tucker. Erguendo a cabea, ele fitou-a diretamente.
	Deixe-me entender. Se voc montar Tucker e andar nele ao menos uma milha, terei que comprar uma picape nova.  isso?
	Sim  respondeu, satisfeita.
Ele hesitou, prendendo os terminais com a chave de fenda.
	Muito bem, aceito  disse, limpando a mo suja de graxa na cala jeans.  Vamos apertar as mos para selar o trato.
Ela apertou a mo forte com dedos trmulos. Travis ergueu uma sobrancelha e sorriu.
	Agora sua parte na aposta.
	Minha parte?
	Sim. No esperava fazer uma aposta onde s eu pudesse perder, no ?
	Montar Tucker  a minha parte.
Ele deu o ltimo aperto nos terminais e recolocou a chave na caixa.
	Aceitei apostar algo valioso para mim, e ter de fazer o mesmo.  Ele fingiu estar pensando, enquanto den sentia vontade de esgan-lo.  J sei! Se no cumprir sua parte, ter de ir  festa do colgio. Comigo.
den no sabia o que dizer. Por mais que temesse montar Tucker, a ideia de enfrentar a festa da escola era muito pior.
	Vou montar Tucker  declarou, lanando um olhar furioso na direo dele  A que horas devo chegar na quinta-feira?
	O mais cedo que puder, para evitar o sol forte. Veja como pode resolver tudo com sua me.  O olhar era inocente ao fechar o capo.  Acho que vai pegar. Mas se fosse voc, trocaria a bateria.
Sem perder tempo, ela entrou no carro e girou a chave. O rudo do motor parecia msica em seus ouvidos.
	Obrigada!  agradeceu, acendendo os faris e manobrando em direo  sada. Travis piscou o olho em despedida, enquanto apanhava a caixa de ferramentas.
	Nos vemos na quinta  gritou Nicole, acenando.  No se preocupe. den. Voc vai adorar!
Vai adorar! den repetia as palavras de Nicole ao entrar no rancho quinta-feira bem cedo. Agora teria de enfrentar aquele desafio.
Saindo do carro, fechou a porta sem fazer barulho. A casa estava silenciosa, e talvez Travis tivesse perdido a hora. Talvez tivessem esquecido, e ela pudesse ir embora.
Mas ao dar a volta na casa, viu-o junto ao estbulo, ajustando a sela de Jackknife. Mais dois cavalos estavam amarrados na cerca do curral. Um deles era Tucker.
	Ol!  Ele acenou ao v-la.  Chegou cedo. Nicole j vem.
	Parece muito contente esta manh.  Forando um sorriso, caminhou para ele com pernas trmulas. No podia fit-lo nem ouvir a voz dele, sem lembrar-se do beijo daquela noite.
Os olhos dele percorreram-na de alto a baixo, observando o jeans bem justo, a camisa de linho branco e o cinto de couro.
	Estou contente em v-la. Pensei que fosse desistir.
	E ir quela reunio? Nem pensar.  den riu, nervosa. Diante de Tucker toda coragem havia desaparecido.  Travis, no sei se  uma boa ideia.
	O qu? O cavalo ou ns dois?
	Pare com isso. No existe ns dois!
Uma sombra ofuscou o brilho do olhar dele, mas logo desapareceu.
	Est bem. Uma coisa de cada vez. Qual  o problema com o velho Tucker?
	No  Tucker. sou eu. Tive uma experincia ruim com cavalos e, desde ento, tenho medo.
	De cavalos e homens. Acho que estou comeando a entend-la, den Harper.
	No aposte nisso.  Olhando para o cho, desejou que Nicole chegasse logo. Travis conseguia deix-la sem jeito, vulnervel e sem defesas.
	Olhe para mim.  Ele ergueu o queixo delicado com o dedo indicador, fitando-a intensamente.  O medo s  forte quando deixamos que seja assim. Pode deix-lo tomar conta de sua vida ou pode venc-lo, mesma que seja passo a passo.
	Pare com isso!  Ela tentou afastar-se, mas o brao forte segurou-a pela cintura.
	Confie em mim. No precisa ter medo.
den ficou rgida quando ele conduziu-a na direo de Tucker. Daquela vez no haveria cerca para proteg-la dos cascos.
Tucker mastigava um talo de feno e olhou-a calmamente. A longa cauda negra balanava, afastando uma mosca insistente. Para ela, parecia maior do que um elefante.
	Fale com ele  sugeriu Travis.  Mostre-lhe que quer fazer amizade.
	Quer que eu minta?  Ele a acusara de covardia, lembrou den. Tinha de mostrar-lhe que estava errado.  Ol, Tucker cumprimentou com voz trmula.  Est pronto para o passeio?
	Muito bem  sussurrou Travis, prximo  orelha dela Agora passe a mo nele.  E, quando hesitou, segurou-lhe a mo, guiando-a pela curva do longo pescoo com o toque acetinado.
 Parece um cachorro grande e bonzinho.
	O que eu disse?  O queixo dele tocou-lhe a orelha, fazendo-a estremecer.  J que  corajosa, vamos em frente.
Afastando-se um pouco, pegou dois tabletes de acar no bolso da camisa.
	D para ele, e Tucker ser seu amigo para o resto da vida.
	Quer que eu o alimente?
	Confie em mim.  Colocando o acar na mo dela, guiou o pulso, gentilmente.  Agora abra sua mo. Assim.
Tucker sentira o cheiro do acar e erguera a cabea. O corao de den quase parou quando os lbios aveludados tocaram-lhe a mo. Ento o acar desapareceu.
	Voc conseguiu!  Ele abraou-a por trs, beijando-a de leve na tmpora. Estremecendo, fechou os olhos, sabendo que deveria afastar-se. Travis Conroy era puro veneno. No haveria futuro em um relacionamento com ele.
	Bom dia!  A voz de Nicole encheu o ar da manh. Com o rosto vermelho, den afastou-se.  Voc veio! Papai queria apostar comigo que no iria aparecer!
	Seu pai tem muito de aprender.  den lanou um olhar de desafio na direo dele.  Especialmente sobre mim.
	Voc fala demais, garota  disse Travis, sorrindo.  Vamos ver se cumpre a aposta. Suba no cavalo.
	Espere s um minuto.  den respirou fundo, criando coragem. Tocara em Tucker e o alimentara, mas mont-lo era outra coisa. A sela parecia estar a metros de altura.
	Precisa de ajuda?  Travis parecia estar se divertindo, e den teve vontade de esmurr-lo.
	Sei como montar. Vi muitos filmes de faroeste  retrucou, com uma segurana que no sentia.
Travis olhava, com um meio sorriso no rosto bronzeado. Ela segurou na sela com a mo trmula.
Movida pela raiva, colocou o p no estribo e montou, com o corao aos saltos. Travis e Nicole aplaudiram. Estava montada em Tucker, com os dois ps apoiados nos estribos.
	 fcil  declarou, jogando os cabelos para trs.
Mas assim que Travis soltou as rdeas e colocou-as nas mos dela, comeou a suar frio. A imagem do acidente voltou-lhe  mente, e o medo a fez estremecer.
	Tudo vai dar certo.  A voz de Travis era terna, a mo |clida sobre o joelho trmulo de den.  Fique perto de mim.
den assentiu em silncio, o corao disparado. Daquela Ivez no era o cavalo, mas o homem que a fitava, sorrindo, a [mo pressionando o tecido de sua cala jeans, fazendo-a estre-jmecer. Estava com problemas, e eles no tinham nada a ver |com o velho Tucker.
	Estou bem. Vamos  murmurou, desviando o olhar.
	Vamos.  Travis montou seu cavalo com a facilidade e a elegncia de um heri de filme de faroeste.
Nicole montou o terceiro cavalo, sem dvida filho de Storm I Cloud. Sorridente, no escondia a satisfao de no ter de mon-I tar o velho Tucker. Esporeando o cavalo, galopou at o porto.
	Nada disso  repreendeu Travis.  Ou cavalga a nosso lado ou cancelo o passeio.
Ao ouvi-lo, den sentiu um sopro de esperana. Quem sabe Travis desistisse do passeio, e ela pudesse fugir dali e dele, bem depressa. Mas a esperana logo desapareceu quando Nicole voltou, colocando-se ao lado deles.
	Desculpe, papai. Podemos ir?
	Sim.  Travis tocou de leve Jackknife que comeou a andar. den seguiu-o, segurando com fora a rdea. Travis colocou-se ao lado dela.
	Relaxe  sussurrou.  Coloque o peso nos estribos. Assim no balanar na sela. Apenas observe o que eu fao.
	Estou bem  declarou den, erguendo o queixo em um desafio.  J pensou na cor da nova picape?
	Negra  respondeu, rindo.  Negra e brilhante como a noite!

CAPITULO VIII

O sol brilhava atrs das montanhas, colorindo o  cu de dourado. Passarinhos cantavam enchendo a manh de sons melodiosos. Os cachorros andavam ao lado deles, s vezes corriam e voltavam, como se quisessem apress-los. Travis observou a filha, pensando que estava obediente demais nos ltimos dias. O que estaria tramando?
	Posso visit-la em Nova York?  perguntava a den. 
	No  educado convidar-se para a casa de uma pessoa  disse Travis, gentilmente.
	Ora, papai, voc  to antiquado!  Nicole sacudiu a cabea, mas ficou imvel ao ver um cavaleiro aparecendo no horizonte.
Era um jovem e cavalgava na direo deles. Nicole acenou, e Travis percebeu por que quisera tanto passear naquele dia. Tinha combinado tudo com o rapaz, que agora reconhecia.
Era o filho mais novo de Jess Erickson, um garoto de dezesseis anos, com cabelos claros e um sorriso amplo. Bem, pelo menos no era Turk, com a tatuagem, pensou, resignado.
	Papai, den, este  Matt  apresentou Nicole, com expresso inocente.  Pode cavalgar conosco, no ?
	Claro  respondeu Travis, controlando-se. A filha estava crescendo, e pelo menos daquela vez estaria junto com eles.
Matt colocou-se ao lado dela e comearam a conversar. Antes que Travis percebesse, o casal tinha se afastado e cavalgava algumas centenas de metros  frente, deixando-o sozinho com den.
O que, afinal, era bem interessante.
	Est indo muito bem  comentou, aproximando-se.  Estou orgulhoso de voc.
	Espero que fique orgulhoso de sua nova picape  disse, sem fit-lo.
Estava linda naquela manh, com o sol iluminando-lhe o rosto delicado. Talvez devesse dizer-lhe aquilo. Ou talvez devesse ficar calado.
	Acho que tenho muito a aprender com Nicole  comentou, rindo.  Ela  terrvel!
	Sim  murmurou Travis, observando os dois jovens cada vez mais distantes.  Faria qualquer coisa para mant-la em casa, comportada e estudiosa, pelo menos at terminar a faculdade.
	Como eu?  perguntou den, de surpresa.
	No  respondeu ele.  Nem pensei nisso.
	A experincia de ter sido Edna Rae, estudiosa e comportada, durante anos, foi to dolorosa que no desejaria o mesmo nem a um inimigo.
Travis sacudiu a cabea, surpreso. Relembrando o colgio, reconheceu que no prestara muita ateno em Edna Rae, mas que, de certo modo, ela parecera feliz naquele tempo.
	No pode ter sido to ruim. Voc era sempre uma das melhores alunas.
	Acha que era suficiente?  Os olhos de den revelavam a dor daquelas lembranas.  Acha que era fcil ficar de fora dos grupos, das festas, sem amigos? Algum como voc nem pode imaginar.
	E isso que pensa?  Ele no escondia a surpresa.  Acha que minha vida foi fcil?
	Foi sempre o queridinho de todos, da escola, da cidade. Alis, ainda .
	Olhe para mim, den.  A voz revelava surpresa. Ele estendeu o brao e segurou-a pela cintura, mas o contato foi to perturbador que afastou-se depressa.  No estamos mais na escola. Olhe quem sou realmente. Talvez no demonstre, mas j enfrentei muita rejeio na vida.
den apanhou um galho de flores amarelas e sentiu o perfume, antes de retrucar com ironia.
	Muito bem, convena-me de que teve uma vida difcil e sofrida.
Ele respirou fundo, antes de comear a falar.
	Sabe muito bem como minha famlia era pobre. Trabalhei no rancho de sol a sol. Tambm no teve uma famlia rica. Alis, ningum teve nesta cidade. Assim, no fazia diferena. Mas na faculdade...
	Conseguiu uma bolsa, por ser atleta  lembrou den, secamente.
	A bolsa ajudou,  claro. Mas entre as aulas e o basquete no podia arrumar um emprego. No primeiro ano nem tinha carro.
	Nem eu. Na faculdade servi mesas na lanchonete, e pedalava uma bicicleta de segunda mo. Pelo menos, voc era um atleta no time.
	Deve estar brincando!  Travis conduzia o cavalo em um trote, e ela esforava-se para acompanh-lo, balanando na sela. S quando Nicole e Matt estavam visveis de novo, ele reduziu o passo.
	No joguei nem dez minutos durante toda a faculdade.
Passei a maior parte dos jogos no banco.
	O qu?  den arregalou os olhos, descrente.  Voc era to bom!
	Tenho um metro e noventa. No  o bastante no time da universidade, onde todos tm mais de dois metros. Nesse tempo conheci Diane.
den desviou o olhar, e Travis quase mordeu a lngua. No devia ter falado na ex-mulher.
	Se Diane  como Nicole, posso imagin-la na universidade.
	Tem razo. Era uma das garotas mais bonitas da escola, a lder da torcida. Dirigia um carro esporte e poderia ter qualquer rapaz do campus. Mas se interessou por mim. Tudo aconteceu to depressa. Quando contou que estava grvida, fiquei em choque. Duas semanas depois, estvamos casados.
- Isso no me parece rejeio.
	Deixe-me terminar  pediu, srio.  Os pais dela me trataram como se fosse um pria, especialmente quando insisti em nos sustentar. Deixei o time e aceitei um emprego de motorista,  noite. No era muita coisa para uma garota que sempre tivera de tudo. Se no fosse pelo beb, teramos nos divorciado muito antes.
Ele parou por um momento. Por que estava contando toda sua vida? Ao v-la ali, ouvindo com ateno, os lbios entreabertos, mal controlava a vontade de beij-la.
Depois da formatura  continuou, por fim , Diane queria voltar para a Califrnia. O pai dela me ofereceu um emprego como diretor da rede de funerrias que possui, com um salrio to alto que s podia ser um presente. Tinha boa inteno e no gostou quando recusei.
O rosto dele estava sombrio ao recordar a cena.
	Disse-lhe que cuidaria de minha famlia, arrumei um emprego de professor em Monroe, e voltei a morar no rancho.
	Ele parou de falar, guiando o cavalo atravs de uma trilha.
	Agora, ao olhar para trs, vejo que fui egosta. Diane nunca seria feliz aqui.
	Mame contou-me sobre o modo como ela o deixou.  As mos de den apertavam as rdeas, em um gesto nervoso. 
	Alguma vez lamentou ter voltado para c?
	No. Quando olho o rancho e vejo o que consegui, sei que tomei a deciso certa. Mas todo vero, quando levo Nicole de volta ao aeroporto, imagino se poderia ter agido diferente.
Ele olhou ao redor, observando as rvores, as flores, pensando como amava aquela terra selvagem, e como detestara a loucura das grandes cidades. Observando a mulher a seu lado, imaginou se ela poderia sentir o mesmo. Afinal, as razes dela tambm estavam ali, embora tivesse fugido para a cidade. De repente, era muito importante saber.
	E voc?  perguntou, de repente.  Pretende passar o resto da vida em Nova York?
den olhou para longe, enquanto Travis esperava a resposta.
	No sei  disse, por fim.  No inverno, quando fazia planos para o casamento, imaginei que poderia viver em uma casa no campo, com vrias crianas. Chet tomaria o trem para Manhattan, e eu trabalharia em casa, escrevendo artigos, talvez livros para crianas. Mas o sonho acabou.
Travis sentiu o pulso acelerar. Precisava agir com calma, no devia pression-la.
	J pensou no que teria acontecido, se tivesse voltado para casa, depois da faculdade?
	Sei o que teria acontecido. Nada! Minha vida em Nova York no  fcil, mas pelo menos estou longe de Edna Rae.  s quando volto a Utah que ela reaparece.
Escondendo a decepo com uma brincadeira, Travis comentou:
	Estranho. No consigo v-la em lugar algum.
	Olhe bem. Edna Rae est a seu lado. Tmida, desajeitada e morrendo de medo.
	De mim?  Travis parou e agarrou as rdeas de Tucker com a mo livre, obrigando-a a parar tambm.  Olhe para mim. Da ltima vez que nos vimos eu a beijei, e voc correspondeu. No sei o que sentiu, mas com certeza no era medo!
	Est zombando de mim.  Ela tentou puxar as rdeas. Se fosse sincero, tudo poderia ser diferente. Mas s quer vencer o desafio.
	Escute...
	Escute voc!  Ela o interrompeu secamente.  Sei que sente atrao por mim. Mas s v den, a mulher sofisticada, de cabelos loiros e lentes de contato. S que sob esta aparncia est Edna Rae, a garota tola que escreveu cartas de amor para voc.
Puxando as rdeas, conseguiu solt-las da mo de Travis, e em um impulso apertou os calcanhares com fora no corpo de Tucker. O velho animal foi pego de surpresa. Com um relincho, disparou como um foguete. Instantes depois, den estava no cho, cada em um monte de capim, enquanto Tucker continuava a correr.
Apavorado, Travis desmontou. A queda tinha sido feia, e podia estar seriamente ferida. Ao v-la sentar-se, apertando as mos contra o rosto, respirou aliviado.
	Voc est bem?
	Acho que sim. No quebrei nada.  Ela flexionou as mos e os ps.  Mas vou ficar com muitas manchas roxas.
	Ao tentar levantar-se, gemeu de dor.
Travis tomou-a nos braos e colocou-a de p, a garganta apertada de emoo. O corpo dela tremia, e, de repente, ele deixou que a raiva o dominasse.
	O que deu em voc? Ficou maluca? Podia ter quebrado o pescoo ou...
As palavras morreram na garganta ao perceber as lgrimas nos olhos dela.
	Sinto muito. Bem que merecia ter quebrado o pescoo.
	Pare de se desculpar o tempo todo!  Travis no conseguia controlar-se, mas aquela mulher era to importante para ele que a ideia de v-la ferida...
	Ser que no entende?  Agora era ela que estava furiosa.
	Em Nova York sou competente, segura. A seu lado volto a ser Edna Rae, fazendo bobagens e pedindo desculpas o tempo todo.
Travis no planejara beij-la, mas de repente parecia a coisa mais natural a ser feita. Tomando-a nos braos, beijou-a suavemente. A resistncia de den desapareceu. Os braos dela rodearam-lhe o pescoo, os lbios abriram-se para aprofundar o beijo.
	 loucura, Travis.
	Uma deliciosa loucura  murmurou ele, beijando-lhe as plpebras e depois voltando  boca de lbios macios.
	No  protestou, sem foras.  No podemos.
	Por que no?
	O cavalo... Nicole...
O nome da filha trouxe Travis de volta  realidade.
	O dever de pai me chama  brincou, afastando-se com um suspiro.  Espere. Vou pegar Tucker. Ser que poder mont-lo?
	 melhor do que andar at o rancho.  Ela forou um sorriso.  Travis?
Ele olhou-a por cima do ombro.
	Precisamos conversar.
	Sim.  Concordando, imaginou o que estaria pensando.
	Conversaremos mais tarde, est bem? Agora precisamos encontrar Nicole.
Tucker estava algumas centenas de metros  frente, mastigando calmamente um punhado de capim. Travis conduzu-o de volta e sentiu uma ponta de orgulho quando den montou-o sozinha, sem demonstrar medo.
	Levou um bom susto. Pode cavalgar at o rancho?
	Claro! Tucker e eu somos amigos. Agora vamos encontrar Nicole e Matt.
den fez o cavalo trotar, balanando na sela, e Travis percebeu que estava com medo. No sabia se era do cavalo ou das emoes que acabara de despertar naquela mulher. Apenas sabia que no podia, no queria desistir dela.
 frente deles, perto da colina, viram os dois jovens que descansavam os cavalos, tendo os dois cachorros com eles. Nicole acenou, e Travis percebeu que no teria mais chance de ficar sozinho com den naquela manh.
Talvez os dois precisassem de tempo para pensar. No entendia den, e de certo modo aquilo a tornava mais atraente.
Precisavam conversar, mas no naquele momento. Ele precisava de tempo para ordenar as ideias.
Os msculos de den doam ao entrar na banheira e mergulhar na gua quente e perfumada com sais de banho. Depois de quatro horas sobre um cavalo sentia cada pedacinho do corpo doer.
Fechando os olhos, tentou relaxar. Era uma hora da tarde e, l fora, a temperatura estava quase quarenta graus. Mas no fazia diferena. Prometera a si mesma que iria vestir um agasalho velho e trabalhar o resto da tarde na mesa da cozinha, revisando os manuscritos que trouxera. Talvez algumas horas de trabalho afastassem Travis de seus pensamentos.
As cenas daquela manh voltaram-lhe  mente. O cavalo descontrolado, a queda. A frgil herona. Tudo parecia o enredo de um filme de segunda categoria. E o pior de tudo era o comportamento dela.
J era tempo de ser realista e dar um basta s fantasias de adolescente. Sem querer, sorriu ao lembrar Travis montado em Jackknife, alto, forte, bronzeado. Passando a lngua pelo lbio inferior lembrou dos beijos, ternos, exigentes.
O banho aliviou os msculos, mas no apagou a lembrana dele nem as sensaes que despertara em seu corpo. Vestindo o velho roupo, decidiu ver se a me queria companhia.
Descendo a escada, viu a me descansando no sof, as pernas cobertas por uma colcha de croch. Com um roupo lils que realava o azul dos olhos, Madge observava o anel que Rob lhe dera, com expresso sonhadora.
	Est linda, mame. O amor deve ser um tmo remdio.
	Voc deveria experimentar  sugeriu Madge.  Como foi o passeio?
	Acho que nunca mais terei medo de montar  respondeu den, sentando-se no canto do sof. No queria contar nada  me, por enquanto.
	Oh, acabei de lembrar!  exclamou Madge.  Chegaram duas cartas para voc. Esto na mesa da cozinha.  Os olhos azuis tinham um brilho intenso.  So de Nova York.
den enrijeceu, estranhando o tom de voz da me. Correndo at a cozinha, pegou as cartas. Uma tinha o timbre da Parnell, a outra... Sem dvida era a letra caprichada de Chet.
	Achou?  perguntou Madge, ainda acomodada no sof.
	Ele no tem vergonha?  den voltou trazendo as cartas.  S para faz-la sofrer, vou abrir primeiro a da Parnell den disse com um pequeno sorriso nos lbios.
Sentando-se de novo, abriu o envelope onde havia o cheque de pagamento e uma nota de sua amiga Denise, tambm editora. den leu a nota para que a me pudesse ouvir.

Queria me despedir, j que Mark aceitou uma transferncia, e estamos nos mudando para Vermont. Sentirei sua falta, mas agora vem a boa notcia. Continuo trabalhando para a Parnell. Eles me permitiram montar um escritrio em casa, com computador, modem e fax. Ser como estar em Nova York. No  incrvel o que a tecnologia permite'? Gostaria...
	Voc tambm poderia fazer isso!  interrompeu Madge.
	Mudar para Vermont? No acho boa ideia.
 Pare de brincar.  A me empurrou den com o p.  Pode ter um escritrio em casa, e trabalhar onde quiser. At aqui!
den gemeu, lembrando a conversa com Travis. As coisas estavam indo rpido demais.
	Por que eu deixaria Nova York?
	Bem... Coisas acontecem e...  Madge brincava com a franja da colcha.  J pensou nisso?
	Quando estava no hospital, pensei em mudar para Salt Lake. Mas agora tudo mudou. Voc tem Rob, no precisa de mim.
	No seja boba, querida. Sempre precisarei de voc.  Madge inclinou-se, apertando o brao da filha.  E agora abra a outra carta.
Os dedos de den tremiam ao abrir o envelope. Toda humilhao voltou-lhe  mente. Talvez Chet fosse se casar e a estivesse convidando para o casamento. Ou talvez pensasse que ela guardara uma cpia da chave do apartamento dele.
Em silncio, comeou a ler a carta reconhecendo o estilo formal de Chet. Leu o primeiro pargrafo, o segundo, sem saber se ria ou chorava.
	O que foi?  perguntou Madge, curiosa.
	Ele... diz que me quer de volta.
	Voc est brincando!
den recostou-se no sof, com a carta no colo.
	Diz que reconsiderou a deciso e quer jantar comigo assim que voltar a Nova York para discutir nosso futuro. Pode imaginar isso?
	Voc est bem, querida?
	S no sei se devo rir ou chorar. Chet me magoou muito. E agora, lendo a carta percebo como  convencido e egosta.
	Lembra-se do que eu disse?
	Como pude ser to idiota, mame? Quer saber mais? Ao ler a carta, por um instante, pensei em aceitar.
	Faria isso?
	 claro que no. 
	Mas ainda quer ter filhos, no ?  perguntou Madge, suavemente.  Voc disse que queria uma famlia.
	Eu sei.  den lembrou as fantasias sobre a casa no campo. Chet jamais deixaria Manhattan e se encolhia cada vez que ela falava em bebs.  Estou tentando no pensar mais em filhos.  bobagem desejar o impossvel.
	den...
	Escute, mame, tenho quase trinta anos e preciso aceitar que o tempo est passando. Mas tenho uma carreira brilhante e de sucesso, e minha vida podia ser pior.
	Mas, querida...
	 claro que tambm posso aceitar a oferta de Chet.  den esforou-se para ficar sria.  E passar o resto de minha vida cuidando das roupas dele, da casa, enquanto mantm meu saldo no banco. E tambm regar seu precioso bonsai, e.... Pare com isso  pediu Madge, rindo.  Se eu rir, os pontos doem.
As duas se abraaram, rindo, mas den no conseguia abafar a dor e a raiva que a carta de Chet trouxera.
den espreguiou-se, olhando o despertador. Eram quase sete e meia. Na noite anterior trabalhara at tarde, e gostaria de dormir mais um pouco. S que a me j devia estar acordado, e certamente precisava da ajuda dela.
Ao sair da cama, sentiu todo o corpo doer. Atravessando o quarto, vestiu o roupo e caminhou at o quarto da me, que ainda dormia.
Resistindo  tentao de voltar para cama, tomou banho, decidida a trabalhar o dia todo. Aquele era o melhor remdio para voltar  realidade. J bastava de fantasias com Travis. O mundo dele era ali, no rancho, e o dela, em qualquer lugar, bem longe daquela pequena cidade.
Saindo do chuveiro, ouviu o som do rdio da me. Vestindo o robe, foi ao quarto de Madge, que estava sentada na cama.
	Acho que posso tomar banho sozinha. Por que no prepara o caf?
	Em um minuto!  den vestiu um velho jeans e uma camiseta. Dez minutos depois, subia a escada com a bandeja do caf, enfeitada com uma rosa do jardim. Madge estava sentada na cama, com os cabelos midos do banho.
	Aqui est...
O som repentino de uma buzina na rua interrompeu a sentena.
	Que vizinhos barulhentos!  reclamou den, abrindo a cortina da janela.
Na frente da casa estava uma picape novinha, negra como a noite, com Travis ao volante, sorrindo satisfeito.

CAPTULO IX

Nicole estava parada na varanda, um dedo pronto para tocar a campainha. Ao ver den, acenou.
	Desa! Meu pai quer lev-la passear.
	No posso  respondeu.  Tenho de cuidar de minha me.
	Fao companhia para ela. Precisa experimentar a picape.  fantstica!
	Obrigada, mas...
V, querida  disse Madge, da cama.  Ficarei com Nicole.
den hesitou. Talvez fosse bom aceitar e resolver tudo com Travis, colocando um ponto final naquela loucura.
	Espere  pediu.  Deso em um minuto.  Correndo para o banheiro, escovou os dentes e penteou os cabelos. Em seguida passou batom, blush e rmel. No queria impressionar Travis, mas tambm no precisava aparecer desleixada.
	No se preocupe. Cuidarei de sua me. Divirtam-se!  Nicole sorria, satisfeita.
Travis descera e esperava na calada. O sorriso dele era mais brilhante do que o sol da manh.
	E ento? Gostou?  Ele parecia to feliz quanto um garoto com a primeira namorada.
	 um brinquedinho bonito  brincou den, admirando as linhas modernas.  Leve-me para dar a volta no quarteiro, depois preciso trabalhar.
	Entre.  Travis segurou-lhe o brao, e den corou ao se lembrar dos beijos que haviam trocado. No mesmo instante, percebeu que ele tambm lembrava.  Suba  insistiu, mantendo a porta aberta.
Mas a picape parecia terrivelmente alta para os msculos doloridos de den.
	Precisa de ajuda?  Travis pegou-a pela cintura, colocando-a no banco.  Quem sabe gostaria de um estribo deste lado. Seria to fcil quanto montar Tucker.
	Nem me lembre disso  resmungou den, colocando o cinto. O interior da picape era luxuoso, com bancos de couro e um painel que mais parecia o de um jato.   linda!  exclamou admirada, assim que Travis acomodou-se atrs da direo.
	Gosto de tudo que  bonito  ele provocou-a.  No tinha notado?  Ligando o motor, comeou a descer a rua.
	S uma volta no quarteiro  repetiu den.
Travis virou a esquina e pegou a rua que levava ao centro da cidade.
	O que est fazendo?  O corao de den disparou.  Todo mundo vai olhar para a picape. Vero que estamos juntos!
	Isso mesmo.  Ele nem sequer reduziu a velocidade diante da indignao dela.
	Sabe o que vo dizer?
	Que tenho sorte, pois estou com uma picape nova e uma linda loira ao lado.
	Pare! Quero descer!
	No consigo ouvir!  Travis ligara o rdio, que tocava uma msica romntica, enquanto conduzia na avenida principal.
den encolheu-se no banco. Ento, percebendo como estava ridcula, endireitou-se.
A avenida principal estava movimentada, e Travis reduziu a velocidade, sorrindo e acenando para todos que encontrava.
den gelou ao ver LaVerne Filstrup, conhecida como a fofoqueira da cidade. Ao v-los, acenou entusiasticamente.
	Por que est fazendo isto?  perguntou, furiosa.  Sabe o que eu penso.
Travis desligou o rdio, acenando para um fazendeiro local.
	 por isso que resolvi traz-la aqui. Assim nos vero juntos e falaro alguns dias, at que surja outra fofoca. E ento poderemos ir a todos os lugares tranquilamente.
	Voc  maluco.
	Obrigado.  Ele sorria, satisfeito.
	Rapto  crime. 
	Pode me processar.  Ele passou pela igreja e seguiu a estrada que levava ao desfiladeiro.
	Travis, tenho de voltar. Mame...
	Est em boas mos.
	Nicole concordou com seu plano?
	Sim.  Travis sorriu.   claro que tem segundas intenes. Imagina que se o velho pai estiver ocupado com sua garota no ter tempo de control-la.
	Foi por isso que me convidou para cavalgar?
	Sim. Ela conheceu Matt no dia que foi a sua casa. Sabia que eu no a deixaria sair com ele e planejou tudo.
	 muito esperta!  den riu e baixou o vidro da picape, deixando entrar a brisa da manh.
	Conversamos bastante. Contou-me que queria ligar para a me, mas voc no deixou. Por que no me disse?
	Achei que as coisas iriam melhorar, e que no precisaria saber.
	Tambm me disse que resolveu parar de fumar, depois de conversar com voc. Obrigado.
	No tenho nada a ver com isso  murmurou den, perturbada pela ternura na voz dele.  E Matt?  disfarou.  Vai deix-la sair com ele?
	 um bom garoto  suspirou, resignado.  Nada de namoro,  claro. Nicole  jovem demais. Mas concordei que pode visit-la no rancho, e sair conosco algumas vezes. Esto planejando uma viagem a Fish Lake depois do feriado. Est convidada,  claro. Alis, eu j disse. Sem den no haver Fish Lake.
	Travis...
	Ela vai ficar decepcionada se voc recusar.
den mexeu-se no assento, sentindo-se encurralada.
	Est bem. Mas  a ltima vez. No podemos continuar nos vendo.
	Por que no, j que  obvio que gostamos um do outro?
	Sabe por qu.  den olhava pela janela, observando a paisagem. A estrada terminava em uma rea de piquenique, no alto do desfiladeiro. Logo Travis chegaria ao final e voltariam para casa.
	No sei. E gostaria que me dissesse.
	 a cidade  disse den.  E tambm eu. E voc.
	No entendo.
	Porque no quer entender. Eu nunca poderia ser feliz aqui. E voc no seria feliz em outro lugar.
Dirigindo ainda mais depressa, Travis pegou uma estrada secundria, sem asfalto, e virou  direita. Os pneus rangeram, mas ele no diminuiu a velocidade.
	O que est fazendo?
	Escute...  pediu Travis, ao chegar em um ponto onde a estrada se abria sobre o vale muito verde, que destacava o azul do cu e as flores que se misturavam no campo. O ar era lmpido como cristal e perfumado pelo aroma dos pinheiros.
 Sei que no  Manhattan. Mas j que est aqui, por que no aproveita o momento?
	No posso.
	Fique quieta e aproveite o passeio.  A voz dele era carinhosa e fez o pulso de den acelerar.
A picape continuava subindo por uma trilha estreita, e a vista ficava cada vez mais linda.
	Estive no desfiladeiro muitas vezes, mas no conhecia esta trilha  comentou den, surpresa.  E lindo. Nunca imaginei que a vista pudesse ser to maravilhosa.
	Ainda est brava comigo?
	No importa. Aonde estamos indo?
	Voc vai ver. No  muito longe.
A estrada seguia para o oeste, onde havia um plat, com um pequeno lago de guas azuis, formado pela cachoeira que descia da montanha.
	Chegamos.  Travis estacionou a picape fora da estrada e parou, descendo para ajudar den. Quando as mos fortes seguraram-na pela cintura, estremeceu. Ele a fitava diretamente, to prximo que a fazia sentir-se vulnervel e confusa.
Percebendo aquilo, Travis soltou-a e foi at a traseira da picape, agora coberta de lama.
	Est com fome? Trouxe o caf da manh.
Sem esperar resposta pegou uma cesta de piquenique e um cobertor xadrez. den percebeu que tambm trouxera uma toalha branca de linho, em um saco plstico.
	Voc planejou tudo  falou, tentando parecer zangada, sem sucesso.
Travis apenas piscou o olho, caminhando para a beira do lago. den seguiu-o, sentindo o estmago roncar ao pensar em comida. Ele aparecera cedo naquela manh, e no tivera tempo de tomar caf.
	Sempre trata to bem seus prisioneiros?  perguntou, enquanto ele arrumava o cobertor sobre a grama e convidava-a para sentar.
	S aqueles que quero manter por mais tempo.
	Travis...
	Relaxe. Trouxe voc at aqui para se divertir, no para ameaar sua virtude.
	Muito engraado.  Ela sentou-se em uma das extremidades do cobertor, as mos segurando os joelhos dobrados. O ar vibrava com os trinados dos pssaros, enquanto os raios de sol danavam na superfcie do lago. Margaridas selvagens espalhavam-se por toda parte.
Travis abriu a cesta e colocou a toalha de linho entre eles.
	Minha me bordou esta toalha aos dezessete anos, para o enxoval  explicou, alisando o tecido com os longos dedos.
 Acho que no se importaria que a usssemos.
den no escondeu a surpresa quando ele tirou da cesta guardanapos de linho, pratos de porcelana, talheres de prata, A seguir veio a comida: morangos suculentos, uvas maduras, queijo, pezinhos, gelia e manteiga.
	Voc fez tudo isso?
	Com um pouco de ajuda da padaria.  Ele riu, mas era possvel ver como estava ansioso para agrad-la.
Com um gesto planejado, tirou da cesta a surpresa final. Um vaso de cristal, com uma rosa vermelha. Os olhos de Travis revelavam ternura.
	Sei que no  Nova York, mas...
	No se desculpe.  A emoo quase no a deixava falar.
Homem algum, nem mesmo Chet, jamais a tratara daquela maneira nem fizera aquilo por ela, e, de repente, teve vontade de chorar.
Em silncio, Travis esperava. den sabia que devia falar alguma coisa, mas no podia. Se falasse, revelaria sentimentos que preferia esconder. De repente, seu estmago roncou alto. Sem jeito, desviou o olhar para o lago. As covinhas do rosto de Travis acentuaram-se quando sorriu.
Acho que seu estmago est reclamando. Que tal um pouco de caf? Ou prefere um pozinho com manteiga?
As lgrimas chegaram aos olhos de den, e sem querer ela riu.
	Nem sei o que dizer.
	 fcil. Apenas diga que vai nos dar uma chance. Que vai  reunio comigo.
	No.  Ela ficou sria.  J decidimos isso.
	Ainda no. Podemos conversar.
	Poupe seu tempo  respondeu den, fitando-o diretamente.  Prefiro mergulhar em leo fervendo.
	Por qu?  Ele parecia to inocente, que den desejou esmurr-lo.
	Assim que entrar na festa, estarei de volta ao colegial.
Ningum ligava para mim. Por que seria diferente agora?
	Porque voc  uma mulher linda, inteligente e encanta dora, que saiu para o mundo e conseguiu sucesso.
	Posso ter mudado externamente, mas continuo a ser a mesma pessoa que sempre fui.
	Tome o caf  disse Travis, abrindo a garrafa trmica e derramando o lquido quente e cheiroso em uma pequena xcara de porcelana. Em seguida, abriu um croissant e passou manteiga
e gelia nas duas metades, entregando um pedao a den.
	Obrigada.  den deu uma mordida no po e bebeu um gole de caf, admirando a xcara antiga e frgil. Um peixe pulou na superfcie do lago, o corpo prateado brilhando ao sol.
	Trutas de Utah  comentou Travis.  Da prxima vez que viermos aqui, trarei equipamento de pesca.
	Prxima vez?  repetiu den, ansiosa.
	Do que tem medo, den?
	De querer muito o que no posso ter.  A verdade escapou-lhe dos lbios, inesperadamente.
	E o que voc quer?  Ele deixara o caf de lado e fitava-a intensamente, esperando a resposta.
Voc, quase respondeu, sabendo que era verdade. Que tudo que sempre desejara fora o amor daquele homem, mesmo sabendo que era impossvel...
Felicidade  respondeu, mascarando a verdade.  Mas no fico ansiosa esperando por isso. Aprendi que a vida se torna mais fcil quando no se pede demais.
	Est feliz agora?
	Eu... no sei. Felicidade  mais do que uma manh de vero na montanha, pssaros cantando e um caf da manh especial.
	E mesmo?  Os olhos escuros estavam cheios de ternura ao fita-la, fazendo-a estremecer.  Acho que  exatamente isso. Por que voc no acha?	
den atirou o ltimo pedao de croissant no peito dele.
	Pensei que tivesse me trazido at aqui para relaxar! Mas isto est se tornando uma discusso filosfica!
	E da?  Ele acabou de tomar o caf e colocou a xcara de lado.  Escute. Estou tentando descobrir um modo de agradar den Harper. E quando pensei que acertei, voc foge.
	E por que quer me agradar?
	Quer mesmo saber?  O olhar de Travis parecia subitamente perigoso, abalando a confiana de den.
	Coma um morango!  Tentando brincar, ela pegou um morango e colocou-o na boca de Travis.
Surpreso com o gesto, ele largou o morango e pegou uma uva madura.
	Quer brincar? Agora  sua vez!
den afastou-se depressa. O caf voou da xcara que segurava, espalhando-se na brancura imaculada da toalha.
	Oh, no!  Com os olhos cheios de lgrimas, olhava a toalha manchada.  Sinto muito.
	E s lavar.  Ele tocou-a no ombro, com um gesto carinhoso.  Durante todos estes anos vivendo sozinho, j lavei  um bocado de roupas.  s usar um tira-manchas e ficar nova.       
	Mas era de sua me.	
	Para que serve uma toalha? No se preocupe.  Ele segurou o queixo delicado, obrigando-a a encar-lo.  Por que est chorando? No pode ser s o caf.
	Por favor...  sussurrou den.  Vamos terminar este caf adorvel e voltar para casa. Preciso trabalhar.
Por um instante, ele hesitou. Uma tristeza pareceu toldar os olhos castanhos.	
	Est bem  disse, em um tom casual.  Vou lhe servir mais caf.
Terminaram de comer em silncio. den lutava contra as lgrimas, enquanto o ajudava a recolher tudo. No tinham brigado nem dito que o relacionamento acabara. Travis fizera de tudo para agrad-la. Mas era um homem orgulhoso, e no tentaria outra vez.
Ele olhava para frente, mantendo a ateno na estrada, enquanto desciam a montanha. den tentava observar a paisagem. Desde o incio, soubera que o relacionamento deles no daria certo. Ento por que estava to perturbada?
Queria quebrar o silncio pesado, mas no sabia o que dizer. Como pudera se apaixonar por Travis outra vez?
	Importa-se se passarmos no rancho? Prometi a Nicole que faramos compras, depois de apanh-la em sua casa. Mas quero ver se tudo est bem com Chocolate. Ela s deve dar cria em algumas semanas, mas esta manh estava inquieta.
den lembrou-se da gua de olhos meigos, e de como Travis tinha esperana de que o filhote pudesse ser um campeo no futuro.
	Quanto tempo uma gua costuma levar dar  luz?  perguntou, deixando os prprios problemas de lado.
	Horas. s vezes, dias. Como  a primeira cria de Chocolate, deve demorar. Mesmo assim, gostaria de checar. Voc se importa de ir at l? Sei que est ansiosa para chegar em casa.
	Tudo bem. Posso esperar mais alguns minutos.
	Obrigado.  A boca sorria, mas os olhos continuavam srios.  No vai levar muito tempo, prometo.
Travis pegou um atalho para o rancho. A picape passava por campos de alfafa, beterrabas e batatas. O dia estava lindo, e den viu-se fantasiando. Podia v-lo montado a cavalo, ao lado dela, que de repente se tornara maravilhosa, dizendo-lhe que era a mulher para ele.
Os pensamentos foram interrompidos quando a picape entrou no rancho. Os cavalos estavam na rea cercada, atrs da cocheira, e os dois cachorros, deitados na varanda, levantaram as orelhas ao v-los. Assim que Travis estacionou, vieram correndo para saud-los.
	Espere aqui  pediu.  Chocolate est l dentro. Vou dar uma olhada, volto j.
Afastando-se depressa, deixou-a sozinha, perdida em pensamentos. Devia estar ansioso para deix-la em casa, pensou.
E era melhor assim, pois jamais poderia ser esposa de um rancheiro. Por mais que estivesse apaixonada por Travis. 
O jovem labrador aproximou-se da janela, erguendo-se nas patas traseiras, pedindo ateno.
den acariciou o plo macio. Sem querer, viu-se imaginando como seria viver ali, sentar-se na varanda em frente ao gramado...
	den!
Travis sara do estbulo e aproximava-se depressa. Vendo a expresso preocupada no rosto dele, desceu da picape.
	 Chocolate. Est com problemas, e o veterinrio foi passar o fim de semana fora da cidade. Vou precisar de sua ajuda. Sinto muito, mas no h ningum...
	Tudo bem.  den apressou o passo, caminhando ao lado dele.
	No entendo  comentou Travis, quase correndo.  Nunca vi uma gua entrar em trabalho de parto to depressa.
	Qual  o problema?
	O potro no est vindo.
Ao chegarem  baia, den viu a gua deitada, a barriga enorme, os olhos amedrontados.
	O que quer que eu faa?
	Tenho de checar a posio da cria. Preciso que mantenha a cabea dela firme, e procure acalm-la. Pode fazer isso?
	Vou fazer  respondeu den, procurando criar coragem, enquanto Travis ia buscar uma longa luva cirrgica. Vestindo-a na mo direita, aproximou-se.
	Pronta?
den assentiu, rezando para no desmaiar. Enquanto ele preparava-se para examinar a gua, sentou-se na palha e colocou a cabea da gua no colo.
	Calma, Chocolate. Calma, garota. Est tudo bem. No vamos machuc-la.
Chocolate olhou-a e relinchou, baixinho. No era difcil segur-la. De certa forma, parecia saber que queriam ajud-la.
No podia ver o que Travis estava fazendo, mas ele falava, enquanto trabalhava.
	Sinto um nariz, aqui a perna... Aqui est o problema.
	O que ?
	A perna est dobrada. Vou ter de ajud-la.  Ele enxugou o suor com a manga da camisa.  Segure firme. Se ela se mexer, pode machucar-se ou ao filhote.
Os olhos dele encontraram os de den, e, por um instante, pde ver confiana, esperana e... amor. Naquele instante, percebeu que faria qualquer coisa por Travis Conroy.
	Pronta?
	S um minuto.  Deitando-se no cho, passou os dois braos pelo pescoo da gua. O medo havia desaparecido, substitudo pela necessidade de ajudar o lindo animal, e o homem que sempre amara.
den pressionou o rosto contra o pescoo quente e acetinado da gua.
	Pronto!  E fechando os olhos, segurou-a com fora.
Travis rezava silenciosamente, enquanto trabalhava. Um movimento errado, e poderia ferir a gua, ou quebrar a perna da cria, que talvez precisasse ser sacrificada. A mo precisava ser firme, mas o toque devia ser suave e preciso.
A presena de den era to doce quanto a de um anjo da guarda. Podia ouvir-lhe a voz meiga acalmando a gua e subitamente percebeu o que desejava. Queria den a seu lado, trabalhando, sonhando, compartilhando e amando. Para sempre.
Dissera a si mesmo para esquec-la, para deix-la voltar a Nova York. Mas no podia desistir. Se queria uma vida com ela, teria de lutar por aquilo.
E quando a perna do potro milagrosamente voltou  posio, Travis soube o que fazer.
	O que acha?  menino ou menina?
Ela hesitou apenas um segundo.
	Menino,  claro. S um macho criaria tantos problemas!
	Vamos apostar?
	Voc e suas apostas! J sabe o que !
	No sei. Juro. E para provar, voc escolhe o que quer apostar.
	Tenho de escolher?
	Sim.  Ele levantou, tirando a luva.  Fizemos tudo que era possvel. Agora  s deixar a natureza trabalhar.
den continuava deitada, um brao em volta do pescoo da gua. Tinha os cabelos despenteados, o rosto corado, e as roupas tinham pedaos de feno. Nunca parecera to linda.
	Vamos,  menino ou menina?  insistiu Travis, puxando-a pela mo para ajud-la a levantar-se. den tremia e sentia os joelhos fraquejarem. Segurando-a pela cintura, Travis apertou-a contra si. A cabea pousada na curva de seu pescoo, os corpos encaixando-se perfeitamente, tudo indicava que tinham sido feitos um para o outro.
	Se eu acertar, nunca mais falar da festa do colgio, certo?
	Sim. E se voc errar...
	Farei o que voc quer.  Ela brincava com um boto da camisa dele.  Travis, est nascendo?
Chocolate erguera a cabea, orelhas em p, olhar alerta. O corpo contraiu-se e logo o potrinho nascia.
	 incrvel.  den abraou-o, lgrimas de emoo molhavam a camisa de Travis, enquanto o potrinho se mexia, ainda envolto na placenta.
	Eu sei  sussurrou, mergulhando o queixo nos cabelos macios.   um milagre! Vamos, o que vai ser?
Chocolate limpava a cria, a grande lngua rosada lambendo a placenta. Travis prendeu a respirao, esperando a resposta. Queria passar o resto da vida com den. Mas no havia esperana se ela no pudesse ser feliz ali, na cidadezinha onde um dia fora to infeliz.
Queria den de um modo como nunca desejara nada nem ningum em toda sua vida. Mas se ela no resolvesse de uma vez os problemas de Edna Rae, no seria feliz ali. A festa seria a chave que trancaria o passado para sempre.
	Menino ou menina?  insistiu, satisfeito porque ela no podia ver a expresso em seu rosto.
O corpo dela ficou tenso, enquanto hesitava.
	Menino, no, menina.
	Tem certeza?
	Sim.
	Est bem. Vamos ver.
A gua estava de p, e o potrinho limpo tinha a cabea erguida. A garganta de Travis apertou-se de emoo ao ver os traos inconfundveis de Storm Cloud.
	 linda  sussurrou den.
	Voc tambm.  Ele beijou-a com ternura, sabendo que a amava. Os lbios macios estavam salgados pelas lgrimas e moldaram-se aos dele com suavidade.
Travis apertou-a contra si, saboreando os lbios doces, as plpebras fechadas. Queria confessar que a amava, dizer tudo. Mas sabia que no era o momento. Ainda no.
O potro tentava ficar em p. Uma perna firmou-se, depois a outra. Chocolate incentivava o beb com o focinho. Instintivamente, o filhote endireitou-se e deslizou sob a barriga da me. Logo mamava satisfeito, a cauda balanando de um lado para o outro. Travis olhou e suspirou, aliviado. Era um macho.
A aposta com den fora a ltima tentativa de faz-la ir  festa, e enfrentar de uma vez por todas a cidade que tanto temia.
Beijando-a de leve, provocou.
Se der uma olhada entre as pernas do filhote, ver que perdeu a aposta.
Ela gemeu, baixinho, apoiando-se contra o peito forte. Travis procurou esconder o desapontamento, abraando-a.
Aqui parece estar tudo sob controle. Mas eu no garanto manter meu autocontrole por muito tempo, se continuarmos assim. E melhor lev-la para casa.
den afastou-se depressa, deixando uma sensao de vazio no peito de Travis.
	 verdade. Nicole deve estar imaginando o que aconteceu.
	Vai ficar ansiosa para ver o potro  comentou ele, fechando a porta da cocheira. At aquele momento, as coisas estavam correndo bem.  Vamos, garota da cidade.  hora de ir para casa.
den deixou a janela aberta, enquanto o vento do vero desmanchava-lhe os cabelos. Em silncio, procurava controlar as emoes que a dominavam. Cada vez que mudava a marcha, a mo de Travis tocava-lhe a coxa, trazendo de volta a lembrana do beijo e a ideia louca de que pertencia quele homem.
Fantasias enchiam-lhe a mente. Noites de inverno junto  lareira. Receber Nicole no vero. Assistir ao nascimento de outros potrinhos.
O que estava pensando? E a cidade? E a festa da escola?
	Como vamos chamar o garoto?  perguntou Travis, interrompendo-lhe os pensamentos.
	Est perguntando para mim?  Ela piscou, surpresa.
	Por que no? Voc ajudou-o a nascer.
	Por que no deixamos Nicole escolher?
	Ela j deu nome para muitos potros. Este  seu.
O olhar dele era terno e caloroso. den estremeceu com medo. Era perigoso sentir-se feliz, pois tudo podia acabar de repente. Fechando os olhos, mal percebeu que ele parara em frente  casa e abria a porta.
	No vou me convidar para entrar. Acho que ns dois precisamos de tempo para pensar.
	Vou chamar Nicole  murmurou den, confusa.
S quando j estava quase chegando  varanda, percebeu que ele falara alguma coisa.
	O que disse?
	Que vai ser a garota mais linda da festa  repetiu, sorrindo.  Telefono para combinarmos.
den entrou correndo em casa, incapaz de ficar com raiva. Agora compreendia que Travis estava to inseguro e ansioso sobre o relacionamento deles quanto ela mesma. 
E aquilo a fazia am-lo ainda mais.
A porta da frente estava aberta, entrou e logo chamou Nicole.
	Seu pai est esperando. Obrigada por...
A voz sumiu ao ver Nicole sentada na escada, fitando-a com um olhar acusador.
Apertado nos braos dela estava o lbum de fotografias do colgio.

CAPITULO X

Eden ficou imvel, paralisada pelo choque. Onde voc...
	Sua me estava dormindo, e eu no tinha o que fazer.  Nicole levantou-se, ainda segurando o lbum, o olhar cheio de raiva.  A garota que escreveu as cartas no era Agnes.
Era Edna. Era voc.
	J faz tanto tempo...
	Voc mentiu. Disse que no conhecia a garota.
	Sinto muito. No sabia o que dizer  explicou den, sentindo-se miservel.
	Podia ter dito a verdade. Eu teria rido, e gostado ainda mais de voc. Mas mentiu. Confiei .em voc. Pensei que fosse minha amiga.
	E sou  respondeu, vendo todos os sonhos desabarem como se uma tempestade os derrubasse, sob o olhar impiedoso de Nicole.
	Amigos no mentem.  Atirando o livro para den, saiu correndo e bateu a porta atrs de si.
Sentando-se no ltimo degrau da escada, den ouviu o motor da picape, e logo o rudo diminua, enquanto virava a esquina e se afastava. Nicole a desprezava. Naquele momento devia estar contando tudo a Travis. E os sonhos de uma vida com ele caam por terra. No importa o que achasse da histria. No iria arriscar o relacionamento com a filha por causa de uma mulher.
Edna Rae acabava de ganhar mais uma vez.
	 voc, querida?  Ouviu a voz sonolenta da me lhe chamar.
	Sim  respondeu, subindo as escadas com o lbum nas mos.
	E ento? Como foi o passeio?
	Bem, A picape  linda  comentou, deixando-se cair em um canto da cama da me.  E Nicole?
	E encantadora e educada. E adora voc, sabia?
den conteve um gemido.
	Disse que voc a fez pensar no futuro. Quando terminar o colgio, quer ir para Nova York estudar flauta e...
As palavras e o sorriso de Madge desapareceram ao perceber a expresso de dor da filha.
	O que aconteceu, querida?
	Nada.  den sacudiu a cabea com veemncia.  Nada que no possa superar.
	Conte-me.
A voz suave da me provocou uma crise de choro em den.
	Eu o amo. Sempre o amei, desde que tinha catorze anos. Mas  impossvel!
	Tem certeza?  Os dedos de Madge massageavam-lhe os ombros, aliviando a tenso.  No a procuraria se no estivesse interessado.
	Travis no  problema.  maravilhoso. To maravilhoso que nem parece real.
	Ento o que ? A cidade?
	No  respondeu den, forando-se a encarar a verdade. 	 uma boa cidade, com muitas pessoas amigas.
	Ento, o que ?
 No v?  Ela sentou-se, afastando os cabelos do rosto.
	Sou eu! Edna Rae. Passei anos tentando me livrar dela, mas continua presente.
	O que h de to horrvel em Edna Rae?  Madge segurou a mo da filha.  Sinto falta de Edna Rae, to carinhosa e inteligente, a quem dei o nome de minha me.
A emoo tomou conta de den. Com os olhos cheios de lgrimas, ia abraar a me quando o telefone tocou.
	Eu atendo. Deve ser Rob  disse, correndo escada abaixo.
	Al?
	Ofegante, de novo?  A voz de Travis era terna, e, ao ouvi-la, den fraquejou. Sem foras, apoiou as costas contra a parede e deslizou at o cho, sentando-se.
	Voc est bem?  perguntou ele.
	Pergunte a sua filha.
	O qu?  Ele perguntou, mas logo riu.  Ah, o lbum. No se preocupe. Logo vai esquecer.
 Esquecer?  repetiu, surpresa ao ver como ele encarava a situao.  No viu como Nicole olhou para mim. Como se nunca fosse me perdoar. No posso ficar entre voc e sua filha. No posso v-lo de novo.
	den, por favor!  Ele resmungou, baixinho.  Conheo muito bem os olhares de Nicole. J perdi a conta de quantas vezes olha assim para mim! Quanto ao resto, no posso for-la. Mas quanto  aposta...
	Pretende mesmo continuar com isso?
	Sem dvida.
	Escute, Travis. No vai querer entrar na festa com Edna Rae. Por favor, esquea.
	Quero entrar com voc, qualquer que seja seu nome no dia da festa! Entendeu?
Surpresa com o tom decidido de Travis, tentou desafi-lo.
	E se eu me recusar a ir?
	Vou dizer uma nica vez. Estarei a, s sete e quinze do dia cinco. Se no estiver pronta, vou mostrar-lhe o que acontece com mulheres que no cumprem as apostas.
	 uma ameaa?
	Entenda como quiser  retrucou ele, calmamente.
	Tem mais alguma coisa para dizer?
Houve um longo silncio, e desejou dizer que o amava, que sempre amara. Mas o orgulho a impediu.
	Acho que ns dois j falamos o suficiente  disse ele, por fim.  Nos veremos no dia cinco.
den no disse nada e logo ouviu o rudo do telefone sendo desligado. Lutando contra o desespero, recolocou o fone no gancho. O dia cinco de julho aparecia como uma nuvem negra e ameaadora sobre sua vida. No s iria encontrar com os colegas, que jamais desejara rever, mas iria faz-lo ao lado de Travis. E do modo como as coisas estavam entre eles, a noite prometia ser um pesadelo.
Talvez fosse melhor fugir da cidade... Mas Madge precisava dela por mais algumas semanas. No podia abandonar a me.
Suspirando, subiu as escadas. No tinha alternativa. E quem sabe o que aconteceria se no estivesse pronta, esperando por ele, no dia cinco?
Durante o resto da semana, no teve notcias do rancho.
Ajudava a me e trabalhava em seus manuscritos. O olho esquerdo ficara irritado e precisara tirar as lentes de contato, usando novamente os velhos culos de aro de chifre. No tinha dvida. Edna Rae estava de volta.
No dia quatro, Madge estava bem melhor, e Rob levou-a a Richfield para ver uma parada. den recusou o convite para acompanh-los e sentou-se  mesa da cozinha com um monte de papis para editar e uma jarra de ch gelado. No pretendia sair dali at terminar.
Pouco depois, um rudo junto  janela chamou-lhe a ateno. Havia um cavalo no jardim!
S depois de sair na varanda, reconheceu Tucker. Montada nele estava Nicole.
	Ol!  Meio sem jeito, den acariciou o pescoo de Tucker.  Pensei que fosse ver a parada.
	Paradas so para crianas.  Ela fitava den com o rosto inexpressivo.
	Se veio visitar mame, ela saiu.
	Vim ver voc.
	Est bem  respondeu, procurando esconder a apreenso.
	Por que no entra? Tenho sorvete na geladeira.
	Prefiro ficar com Tucker. s vezes ele cria problemas.
	Seu pai sabe que veio aqui?
	No. Ele est limpando o estbulo.  Ela continuou, muito sria.  Meu pai esteve pssimo a semana toda. Nunca o vi assim.
	Acha que  por minha causa?  den fitou a garota, por trs das lentes dos culos.
	Acho que est com medo. Quer que tudo d certo entre vocs, mas tem medo de que no d.  Nicole fingiu olhar uma mancha no pulso.  Tem medo de que no v  festa com ele. E que isso seja o fim.
	O fim?  repetiu den.  Mas no  o que voc quer? Pensei que no gostasse de mim.
A risada de Nicole era como um eco da de Travis.
	Se no gostasse no teria me importado. No percebeu? Sinto muito. 
	Eu tambm sinto.  A voz estava carregada de emoo.
	Prometo que jamais mentirei para voc. Ou para seu pai ou...
Estamos ficando muito sentimentais!  Nicole sorriu, como um anjo.  E melhor ir embora. Se meu pai ligar, nunca estive aqui.
Disse que no vou mais mentir!  gritou den, mas Nicole j estava longe.
Com um sorriso nos lbios, voltou para a cozinha. Tal pai, tal filha. Os dois eram brilhantes, e irresistveis. As palavras de Nicole ecoavam em sua mente. Ele tinha medo de que no fosse  festa, de que tudo acabasse.
De repente, tomou uma deciso. Pegando a agenda de telefones, discou para Marvella Johnson, a cabeleireira da me, rezando para que estivesse em casa no feriado.
A campainha da porta tocou uma vez, e logo outra vez. den correu para atender. Ele no telefonara desde aquele dia, mas era cinco de julho, e precisamente sete e quinze.
Ao abrir a porta, viu-o parado na varanda, os longos dedos brincando com a gravata de seda vinho. Parecia to nervoso quanto um calouro, mas, ao v-la, o rosto aqueceu-se com um sorriso terno.
	Est linda  comentou, tocando um cacho de cabelos loiros.
	No quer entrar? Mame e Rob saram para ver a lua.
Ele riu, jogando a cabea para trs, os dentes muito brancos contra a pele bronzeada.
	No. Conheo seu jogo. Se entrar, vai acabar me seduzindo. E vou esquecer a festa.
	Voc me conhece bem.  den riu.  Sabe que vai passar Guerra nas Estrelas na tev? Que tal assistirmos?  provocou.
	Venha!  Ele pegou-a pela cintura e levou-a para a picape.
 Vamos  festa, srta. den Harper! Isto , se eu conseguir manter minhas mos longe de voc tempo suficiente para poder dirigir!
Colocando-a no banco, fechou a porta e deu a volta, sentando-se atrs da direo. O corao de den batia disparado. Tinha feito de tudo para agrad-lo. Arrumara os cabelos, colocara o vestido favorito, e at pusera as lentes, apesar do olho irritado. Mas a ideia de entrar no ginsio lotado ainda era um pesadelo.
O baile a espera, Cinderela!  Travis sorria, e den colocou o cinto, em pnico. Ao fit-lo, na semi-escurido da cabina, admirou o perfil forte, a curva sensual dos lbios. Como o amava!
Pouco depois chegavam ao colgio. O estacionamento estava lotado de carros. Muitas pessoas dirigiam-se s portas iluminadas.
Voc est bem?  perguntou Travis, tocando a mo gelada com os longos dedos.
Assentindo em silncio, den imaginava que seria melhor ir para a forca.
Ele estacionou o carro e deu a volta, ajudando-a a descer. Tonta e ansiosa, den deu-lhe o brao. Estava tudo bem. Estava com Travis.
Ento ouviu a msica.
O som trouxe de volta todas as lembranas. Os bailes em que ficava olhando os pares, sempre sozinha. Apoiando-se na picape, quase suplicou:
	No posso, Travis. Por favor. Toda essa gente...
	Venha!  Ele puxou-a pelo brao e continuou andando.
 So humanos, como ns.
	Voc no entende. No so eles. Sou eu.
	Voc?  O olhar dele tinha um brilho desesperado.  Quem  voc esta noite? Pode responder? 
	Travis...  Ela tentou afastar-se, mas Travis a impediu, erguendo o queixo delicado e obrigando-a a fit-lo.
	Tenho uma confisso a fazer. Estou apaixonado por duas mulheres. Uma  sofisticada, autoconfiante e maravilhosa. A outra  tmida, sensvel e terna.
Uma lgrima escorreu pela face de den, que tinha medo de acreditar no que ouvia.
	Amo as duas, porque juntas so voc!  Ele enxugou a lgrima com o dedo.  Quero que dure para sempre. Mas h uma condio. Se no entrar e enfrentar Edna Rae, como uma parte vital e maravilhosa de voc,  melhor dizer adeus. Agora.
den olhou os profundos olhos castanhos. Neles havia esperana, amor, sonhos e medo. Ento soube o que deveria fazer.
Fechando os olhos por um momento, respirou fundo. Colocando a mo gelada na de Travis, sussurrou:
Vamos entrar.
	O ginsio estava exatamente como se lembrava. Fitas de papel crepom branco e vermelho, as cores da escola, caam do teto. Bales das mesmas cores espalhavam-se por toda parte.
Ouvindo a msica tocar, parecia estar entrando no tnel do tempo.
Travis!  O homem  frente deles tinha ralos cabelos castanhos e usava culos. Uma barriga saliente destacava-se acima do cinto.  E quem  ela? No acredito! Edna Rae Harper!
	LeRoy!  Travis apertou a mo do homem, enquanto den observava, incrdula.
Aquele era LeRoy Hatch, capito do time de futebol, uma das estrelas do colgio.
	Edna Rae!  repetiu ele.  Soube que foi para Nova York e fez sucesso. Pelo menos, algum conseguiu! Eu me casei com uma garota de Beaver e tomo conta da revendedora de carros do pai dela. No  o sucesso, mas no posso me queixar. Foi bom v-los! Olhe,  Mitzi Cole!
	, sim  confirmou Travis, olhando a mulher alta que vestia um conjunto preto.  Tem uma academia em Phoenix. Casou-se duas vezes, mas agora vive sozinha.
	Aquela  Lynette, no ?  perguntou LeRoy,
Os cabelos da chefe da torcida continuavam lindos como antes. Mas o resto...
	Ol, garotos!  saudou-os, aproximando-se. Grvida e enorme, usava um vestido que mais parecia uma tenda.  Vocs acreditam? O mdico disse que so gmeos. Devem nascer em dez dias!  O sorriso alargou-se ao ver den  den! Que bom que veio! Falo sempre com sua me na igreja. Tem tanto orgulho de voc. Todos ns temos. Sempre foi to inteligente! Nem imagina como eu a invejava!
	E eu sempre invejei sua beleza!  respondeu den, abraando-a.   muito bom rev-la.
Apertando o brao de Travis, enquanto os amigos se afastavam, comentou.
	Sinto-me to tola! Todos mudaram. Parecem to...
	Humanos  completou Travis, sorrindo.  Venha, quero danar com minha garota.
A msica que tocava era romntica, e ele pegou-a pela cintura.
	No sei danar  protestou den.
	S precisa de um bom professor. Relaxe e deixe-me conduzi-la  sussurrou,
Os primeiros passos foram incertos, mas logo deslizava nos braos de Travis. De olhos fechados, sabia que o sonho tornara-se realidade, mais maravilhoso do que qualquer fantasia.
den Harper, afinal, voltara para casa.

EPLOGO

O luar banhava os pinheiros e carvalhos. A brisa perfumada era uma bno do outono que chegava.
Vestindo o roupo de Travis, den saiu na sacada do hotel.  A noite estava linda, e a msica que vinha do salo de jantar, alguns andares abaixo, enchia o ar. Travis abraou-a por trs, apertando-a contra si.
	O que est pensando, sra. Conroy?
	Estou apenas lembrando cada detalhe do dia de hoje sussurrou, de olhos fechados.  Quero contar tudo aos nossos filhos.
	Foi um lindo casamento duplo.  A mo dele deslizou sob o roupo.  Duas lindas noivas.
	E dois lindos noivos.
	E uma linda dama de honra, flertando com todos os homens com menos de vinte anos.
	Relaxe.  Ela virou-se, erguendo o rosto para beij-lo. Nicole  uma boa garota. Logo vai amadurecer.
	Espero.  Ele apertou-a ainda mais.  Venha. A lareira j aqueceu nosso quarto.
	J estou aquecida!  Riu den, enquanto ele a tomava nos braos, levando-a para a cama. A pequena lareira enchia o quarto de um brilho dourado.
Colocando-a sobre o colcho, Travis desamarrou o roupo, revelando a fina camisola de renda branca.
Eu te amo, Edna Rae  sussurrou, os lbios tocando-lhe o pescoo.  E tambm te amo, den Harper Conroy.
Os dedos de den mergulharam nos cabelos escuros, conduzindo gentilmente a boca de Travis para seus seios. Ele respirou fundo, tomou-a nos braos, e ento, todos os sonhos tornaram-se realidade.

FIM

 
